terça-feira, 7 de fevereiro de 2017




                                          70 anos do mineirinho de ouro

No último dia 25 de janeiro de 2017, o cidadão Eduardo Gonçalves de Andrade completou 70 anos. Não acompanhei a carreira do Dr. Eduardo, mas tive o privilégio de ver de perto a trajetória do jogador Tostão e narrar vários jogos desse que foi um dos maiores astros da história do futebol mundial.
Tostão em campo era ao mesmo tempo tático e técnico. Suas atuações primavam pela movimentação tanto com a bola nos pés como sem ela. Inteligente, tecnicamente perfeito, com espírito de equipe, Tostão nos brindava com atuações inesquecíveis.
O garoto integrou a equipe de futebol de salão do Cruzeiro com 14 anos, em 1961. No ano seguinte, atuou no time juvenil do Cruzeiro. Na mesma temporada foi defender as cores do América Mineiro. A direção do Cruzeiro sentiu o potencial do jovem de 16 anos e o contratou em 1963.
A inauguração do Estádio Magalhães Pinto, o Mineirão, em 1965, propiciou o crescimento do futebol mineiro. Cruzeiro e Atlético, os clubes mais populares, formaram grandes equipes.
Um ano depois, o Cruzeiro conseguia um dos maiores feitos da sua gloriosa história ao conquistar o título da Taça Brasil de 1966, vencendo o todo poderoso Santos de Pelé e Cia, bicampeão mundial e penta da Taça Brasil.
O resultado da primeira partida, no Mineirão, surpreendeu a todos: Cruzeiro 6 x Santos 2. No Pacaembu, o triunfo por 3 a 2, numa virada sensacional, consagrava Tostão e seus companheiros Raul, Piazza, Natal, Dirceu Lopes.
A coleção de títulos e a presença na seleção brasileira passaram a fazer parte da vida de Tostão. Em 1969, o craque mineiro era uma das “feras” de João Saldanha, tornando-se o artilheiro das eliminatórias para a Copa de 1970.
No dia 24 de setembro de 1969 durante a partida entre Corinthians e Cruzeiro, no Pacaembu, pelo Torneio Roberto Gomes Pedrosa, o zagueiro Ditão chutou forte e a bola atingiu a vista esquerda de Tostão, provocando o descolamento da retina.
A cirurgia em Houston, nos Estados Unidos, permitiu que Tostão fosse ao México participar da Copa do Mundo. Com Saldanha Tostão era titular absoluto, porém com Zagallo ele poderia ser reserva de Roberto Miranda.
Estávamos em Belo Horizonte, eu e o querido Mario Mota, operador de externa, para transmitirmos dois amistosos do Botafogo, no Mineirão. Combinei com o Mário para fazermos uma entrevista com Tostão. Entrei em contato com ele e marcamos para o dia seguinte na sua residência.
Telefonei para o Jorge Curi e disse que entraríamos no programa “No Mundo da Bola” com a entrevista. Correu tudo como combinamos. Fomos maravilhosamente bem recebidos. Sentimos de perto a simplicidade e gentileza de Tostão, qualidades inerentes aos seres humanos de espírito elevado.
Na seleção, prevaleceu o bom senso e Tostão permaneceu como titular ao lado de Pelé, assim como Rivelino e Gerson que jogaram juntos. Sempre haverá em qualquer time lugar para os gênios. E, Tostão foi gênio.
No México, Tostão se destacou em todas as partidas, protagonizando lances inesquecíveis, como o drible em Bobby Moore que iniciou a jogada do gol da vitória por 1 a 0 sobre a Inglaterra, marcado por Jairzinho.
O jornalista Manuel Apelbaum, o querido Manolo, me disse que na opinião do técnico argentino Cezar Luiz Menotti e de vários jornalistas, Tostão foi o melhor jogador da Copa.
Em abril de 1972, surgiu o Vasco na vida de Tostão. Porém o problema da vista voltou a incomodar, obrigando-o no ano seguinte a encerrar precocemente sua brilhante carreira aos 27 anos.
A partir daí, o futebol perdeu uma das suas maiores estrelas. Que saudade!. Ficam aqui os parabéns ao Dr. Eduardo Gonçalves de Andrade, hoje brilhante colunista esportivo. Ainda bem que ficou um pouco de Tostão. De coração, os meus votos de muitos anos de vida.
Início da carreira no América Mineiro
                               
Tostão vai apanhar a bola no fundo da rede santista na goleada sobre o Santos por 6a 2, no Mineirão

 
Antes da partida Dirceu Lopes, Pelé e Tostão

 
Com a Taça Brasil Tostão vibra após a grande conquista
 
 
O artilheiro do Brasil nas eliminatórias para a Copa de 70 marca contra a Venezuela

 
Tostão se recupera da cirurgia em Houston

 
Equipe do Cruzeiro na década de 70

 
O drible em Bobby Moore que deu início ao lance do gol de Jairzinho contra a Inglaterra

 
Tostão conversa com "Mestre Ziza" que foi seu técnico no Vasco

 
A emoção de Tostão após a final contra a Itália. O craque é entrevistado pelo grande repórter Luís Fernando, da Rádio Nacional

 
Tostão chegou ao Vasco recebido nos braços da torcida

 
Tostão e Dirceu Lopes antes do primeiro Vasco e Cruzeiro após sua saída do clube mineiro

 
Tostão com Gerson, seu companheiro na seleção brasileira, antes de Fluminense e Vasco

 
Por ocasião da visita de Iashin ao Brasil, Tostão e Garrincha aparecem ao lado do grande goleiro russo
 
 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017


    Zezé comanda o “timinho” campeão – III –

Zezé Moreira foi o grande comandante tricolor na conquista do título carioca de 1951. Ele contou com a assistência técnica do competente Gradim, cuja participação foi decisiva nas conquistas do penta campeonato juvenil e do título de aspirantes. Em 1951, o Fluminense fez barba, cabelo e bigode.
 
Uma das formações da equipe que conquistou o pentacampeonato carioca de juvenis de 1951:
Luís Carlos, Mauro, Paulo, Gradim (técnico), Décio, Italo e Horontes; Deusdith, Milton, Larry, Hélio e Leozil
 
Time campeão carioca de aspirantes de 1951: Veludo, Nestor, Emilson, Larry, Joel, Duarte, Rubens Bimba, Victor, Lino, João Carlos e Robson
 
 

 
Zezé Moreira e Gradim grandes responsáveis pelo sucesso do Fluminense na temporada de 1951

 
Capa da revista do Fluminense em homenagem as conquistas do campeonatos cariocas de juvenil, aspirante e profissional na temporada de 1951
 

                          Zezé Moreira comanda o “timinho” campeão – II –

Orlando “Pingo de Ouro”
       Na entrevista que fiz com meu amigo Orlando, o famoso “Pingo de Ouro” no programa “Álbum dos Esportes”, na Rádio Capital, em 1984, ele falou sobre a campanha do título carioca de 1951:
“Em 1951, o Fluminense conseguiu Zezé Moreira. Ele foi um grande timoneiro e impôs uma rígida disciplina tática. O Fluminense era conhecido na época como timinho. Não era timinho, porque tinha Castilho, Píndaro, Pinheiro, Vitor, Telê, Didi, Carlyle. Castilho veio do Olaria; Pinheiro e Telê subiram do juvenil; Carlyle foi contratado ao Atlético Mineiro; Vitor veio do Bonsucesso; Edson veio de Minas”.
Perguntado por nós se a função desempenhada por Telê era uma decisão do jogador ou estabelecida por Zezé Moreira, Orlando respondeu sem deixar dúvidas:
“Naquela época ninguém fazia nada de sua própria cabeça. Os técnicos tinham uma força incomensurável. Zezé Moreira pegou Telê, que era centroavante do juvenil, jogador muito inteligente, de muita habilidade e o colocou na ponta-direita, jogando recuado no meio de campo.
Zezé era de uma personalidade gritante, a ponto de pedir a retirada do presidente do clube do vestiário, porque ele queria dar instruções e não queria ninguém presente. Hoje em dia não. Um jogador ganha mais do que o técnico e põe o técnico para fora.
Foi Zezé que esquematizou o time. O time era defensivo, tanto que nós quase sempre ganhávamos de 1 a 0. O ponta adversário pegava a bola, nosso beque já recuava, o meio de campo fechava o funil e restava ao adversário centrar a bola. Aí nós tínhamos Castilho fabuloso, Pinheiro muito alto. Os ataques morriam ali”.
Com relação às críticas da imprensa que insistia em chamar o Fluminense de “timinho”, Orlando explica a reação dele e de seus companheiros:
“Comentávamos muito sobre o assunto e se pudéssemos nos rebelar, nos rebelaríamos, principalmente os atacantes. Ficar lá na frente com o Carlyle era uma loucura. Mas, como estávamos em grande forma e o Carlyle era um artilheiro muito bom, nós fazíamos os gols do Fluminense.”
Pinheiro
            Conversei com Pinheiro, um dos maiores zagueiros da história do Fluminense e do futebol brasileiro, no seu apartamento no Recreio dos Bandeirantes. Ele era o chamado zagueiro de espera, que jogava na sobra, na cobertura dos companheiros que davam o primeiro combate aos atacantes adversários e nos explicou como funcionava o esquema do técnico Zezé Moreira:
“Olha, foi muito interessante. Depois do supercampeonato de 46, o Fluminense dispensou uns 11 jogadores. Do time ficaram Orlando, Rodrigues e Pé de Valsa. Em 48, jogavam Ïndio, Pé de Valsa, Bigode, Santo Cristo, Simões, Castilho, Orlando e Didi. Em 49, veio o Carlyle. Em 50, foram feitas muitas experiências e só ficávamos eu, Píndaro, Castilho, Orlando e Didi. 

Quando o Zezé entrou vieram Edson, Vitor, Lino. Foram promovidos Telê, Joel, Robson e retornou o Bigode. Joel era muito combatido por ser meio lento, mas era excelente. Batia muito bem com a direita e a esquerda. Obediente taticamente, metia a bola onde queria. Carlyle entrava e ele metia a bola na cabeça do Carlyle . Zezé, excelente treinador e de uma moral fora de série, nos dava muita força 

Nós éramos muito unidos e não nós importávamos em sermos chamados de timinho. Se nós fomos dominados pelo adversário e ganhamos de 1 a 0, vamos dar continuidade a isso. Nós conversávamos muito a esse respeito. 

O Fluminense não era um time defensivo. Jogávamos defendendo os setores. Nós não dávamos combate de lado ao adversário de posse da bola. Se o ponta pegasse a bola, por exemplo, o lateral não corria lado a lado com ele. Eu saía e ficava de frente, obrigando-o a parar a bola, para dar tempo de um companheiro fazer a cobertura. Nós não íamos de primeira no combate. Quando o Píndaro ia cercar o ponta, eu já ficava nas costas do Píndaro. Eu fazia a cobertura dos dois lados. Eu dentro das minhas características jogava como um beque de espera, um líbero. Zezé deixava eu jogar como eu sabia, colocando dois volantes na minha frente. Hoje, são cabeças de área.

O Edson e o Vitor, também, atacavam. O primeiro combate era dos dois. Um dava o combate, o outro ficava na cobertura. O adversário ficava muito com a bola nos pés, dando a impressão de que o Fluminense estava sendo dominado. Só que o Fluminense tinha dois jogadores, que quando a bola chegava neles, eles deixavam os atacantes na cara do gol. Eram Didi e Telê, com o Joel recuando um pouco. Orlando foi um baita jogador e o Carlyle muito técnico e inteligente. Carlyle foi artilheiro do campeonato e jogou na seleção brasileira. Lino, revelação do São Cristovão, era um ponta muito rápido e driblador. Quando se machucou Zezé colocou o Telê.  

Os ataques do Fluminense eram feitos com bolas muito bem lançadas. Melhorou com o Telê, porque ele era um centroavante muito habilidoso. Ele fechava o meio, roubava a bola e dava ao Didi, e abria pela ponta. Aí, nós no ataque tínhamos os dois pontas. Os adversários eram muito bons. Nós tínhamos consciência do falso domínio deles. A velocidade nossa era na saída da bola”.

Píndaro
            No jardim do edifício na Rua Marquês de São Vicente, na Gávea, conversei por longo tempo com Píndaro. Ele salientou a união do grupo:
“Quando o Zezé entrou, contratou um jogador, o Edson. Ele veio de Minas  e tinha grande poder de marcação. Mas, o Zezé trabalhava a gente e conseguiu unir a turma. O pior num time de futebol é a desunião. O Fluminense teve uma época, muito depois, quando jogava esse menino Branco, que existiam duas ou três panelinhas. Um time não pode ter panelinha. A direção técnica é primordial. Se você não souber dirigir um time, colocar os jogadores se respeitando mutuamente e fazendo crescer a união, você pode colocar o melhor técnico do mundo, os melhores jogadores do mundo, que não vai dar certo. Zezé era exigente e justo. O time foi formado com jogadores que já estavam lá, mais o Edson e jogadores crias da casa que foram promovidos, como Pinheiro, Telê, Quincas, Joel.
A marcação por zona bem orientada e bem executada é taticamente o que se faz hoje. Você não vê um lateral atrás de um ponta que se desloca muito. Então, cada um cobre um setor. O Edson era sacrificado, porque faltava nele algumas qualidades. Ele pegava a bola e tinha que passar três vezes para acertar uma. Então, jogava nos pés do adversário e tinha que tomar a bola, até acertar o passe. O Didi quase não corria. Ele ficava ali naquela área do deixa que eu fico e às vezes eu tinha que dar uma carreira nele, para ele ir para frente. Didi metia bolas de 30 metros, enquanto Edson tinha que correr com ela.
Na época nós não sentíamos a diferença que a imprensa fazia do nosso time para os outros, nos chamando de “timinho”. O time era muito unido e de muita personalidade. Antigamente nós nos sacrificávamos, tínhamos raça. Hoje o dinheiro está atrapalhando. Muitos jogam sem essa vontade. Nós damos de 10 a 0 neles”.
Victor
            Na sala do Flu Memória, na presença do querido amigo Luizinho, funcionário que cuida com zelo total do precioso acervo, ouvi a opinião de Victor sobre o time campeão carioca de 1951:
“Cheguei ao Fluminense em 1951. Não fui titular logo no início. O titular era o Pé de Valsa e o Nelson Adams o reserva. Para alegria minha e infelicidade do Nelson Adams, ele rompeu o tendão de Aquiles e não conseguiu voltar mais. Eu me adaptei mais ao sistema do Zezé Moreira, a marcação por zona, do que o Pé de Valsa, que era muito mais técnico mas eu era mais briga. 

Veio o campeonato eu joguei nos aspirantes e o Pé de Valsa no time titular. Na terceira ou quarta rodada, os aspirantes venceram do Vasco, se não me engano, por 3 a 0, e os titulares perderam por 4 a 2 e o Pé de Valsa foi queimado.  

Na semana do jogo contra o Bangu, Zezé me colocou para treinar meio tempo nos aspirantes e meio nos titulares. Na concentração os aspirantes acordavam às 7 horas e os titulares às 8. No domingo do jogo, não me acordaram. Às 10 horas fizemos a revisão médica e o Pé de Valsa foi queimado, dizendo que a pressão dele estava alta. Para minha felicidade a porta se abriu naquele dia. Ganhamos do Bangu, que era o bicho papão, por 5 a 3, e daí por diante joguei o campeonato todo”. 

A imprensa em geral e os torcedores dos outros clubes chamavam a equipe do Fluminense de timinho. Victor nos conta como ele e seus companheiros reagiam e a partir de qual momento sentiram que poderiam ser campeões: 

“Só quero saber o seguinte: time igual ao do Fluminense, da categoria do Fluminense, com quatro jogadores de seleção, é timinho? Então os outros o que eram? Perna de pau. Tínhamos Castilho, Píndaro, Pinheiro, Didi, Orlando. Eles pensavam que era timinho, mas não era. 

Nós sentíamos que tínhamos condições de chegar ao título, porque nós éramos muito aplicados. Nós sabíamos o que o Zezé queria. Nós cumpríamos aquilo à risca, nunca fugimos. Todo mundo dizia é marcação por zona, ele vai matar os jogadores. E ninguém morreu. Eu, por exemplo, não morri. Eu e o Edson tínhamos um preparo físico muito bom e marcávamos muito. 

A derrota na última rodada, que provocou a melhor de três, para nós foi uma surpresa, apesar do Bangu ter um grande time. O nosso era mais aplicado e mais bem treinado. Nós quando saímos para a decisão contra o Bangu, saímos compenetrados que tínhamos time para ganhar do Bangu.  

A posição do Telê no juvenil era centroavante. Quando o Telê foi para o profissional, o Zezé o colocou na ponta direita, porque queria alguém que fechasse pelo lado direito e não ficasse fixo lá na frente. Telê se adaptou de tal maneira que se tornou a figura no time que mais cumpria a determinação do Zezé.  

Carlyle foi expulso no primeiro jogo e o Telê foi escalado como centroavante, entrando o Lino na ponta direita e o Robson na esquerda. 

Na primeira partida, num escanteio, o Carlyle se aproximou do Osvaldo “Topete” e foi empurrado por ele. Quando o Osvaldo deu às costas, o Carlyle desmanchou o cabelo dele. O Mário Vianna expulsou só o Carlyle. Eu tinha a certeza de que aquele ano era do Fluminense. 

No primeiro jogo, o Mendonça ameaçou todo mundo. Ameaçou o Joel. O Didi foi se meter e ele também o ameaçou, dizendo que ia dar mesmo. O Didi respondeu se ele fosse dar, ia levar também. Na primeira bola dividida com o Mendonça, o Didi já estava prevenido e malandramente esticou a perna a mais e aconteceu o que não podia acontecer, fraturar a perna do Mendonça”.

 
No vestiário, após o primeiro jogo da melhor de três, Orlando, autor do gol da vitória tricolor, é abraçado pelo Presidente Fábio Carneiro de Mendonça
 
 
Pinheiro é carregado pelos torcedores do Fluminense após a conquista do campeonato carioca de 1951

 
Píndaro protege a defesa de Castilho

 
Na sede do Fluminense, Victor e Orlando são carregados por torcedores na festa pelo título de campeão carioca de 1951
 

 

     Zezé Moreira comanda o “timinho” campeão - I -

Depois da péssima campanha no campeonato carioca de 1950, medidas importantes foram tomadas nas Laranjeiras para a temporada de 1951, inclusive com a inauguração de uma moderna concentração para os jogadores.
Zezé Moreira, técnico campeão carioca de 1948 pelo Botafogo, foi contratado com a missão de renovar o elenco do Fluminense.
Como se dizia na gíria esportiva, os tricolores fizeram barba, cabelo e bigode. Foram pentacampeões juvenis, campeões de aspirantes e conquistaram o título carioca de profissionais.
Castilho, Píndaro, Pinheiro, Didi, Carlyle e Orlando permaneceram no elenco tricolor. Foram contratados Victor, do Bonsucesso, Lino e Jair, do São Cristóvão, e Edson, do Siderúrgica, de Minas Gerais. Robson, Quincas e Joel eram crias da casa, além de Telê que no juvenil atuava de centroavante. 
            Chamado para o time principal, Telê exerceu, como ponta recuado pela direita, uma das principais funções no esquema implantado por Zezé Moreira. Faziam também parte do grupo Nestor, Pé de Valsa, Lafaiete, Jaiminho, vindo de Recife, Nino, ex-Portuguesa de Desportos, e o peruano Villalobos.

No primeiro Fla x Flu do campeonato, realizado no dia 14 de outubro de 1951, o Jornal dos Sports promoveu uma grande festa entre as duas torcidas. Motivados rubro-negros e tricolores realizaram um dos mais belos espetáculos da história do Maracanã. Pelo lado do Flamengo, sob o som da famosa charanga liderada por Jaime de Carvalho, os rubro-negros improvisaram verdadeiro carnaval.
No gramado, Paulista, chefe da torcida tricolor, trajando smoking e cartola, recebia bela moça saída de gigantesca caixa de pó-de-arroz. Ambos desfilaram pelo gramado ao lado do cantor Blecaute, vestido de general, que fazia grande sucesso com a marchinha General da Banda.
Assistiram à partida o Presidente Getúlio Vargas, o Vice-Presidente Café Filho e o Prefeito João Carlos Vidal. Paulista, sempre acompanhado por Bolinha, com o seu inseparável sino, e Jaime de Carvalho se encontraram na arquibancada, em frente à linha central do campo, se abraçaram e trocaram corbeilles de lindas flores sob os aplausos do público que lotava o Maracanã. Eu, garoto de 12 anos, tive o privilégio de assistir a inesquecível festa, levado ao Maracanã pelo querido e saudoso Tio Jader. 
Bons tempos àqueles em que o futebol era uma grande festa. As torcidas não se agrediam, ao contrário, se confraternizavam. Saudades de Paulista, Bolinha e Jaime de Carvalho, genuínos torcedores.
A partida foi emocionante. No Flamengo, estreava o excelente ponta-direita Joel. Jovem, ainda, o estreante deu muito trabalho ao setor esquerdo da defesa tricolor. Na meta do Fluminense, Castilho praticava grandes defesas. Numa cabeçada do gaúcho Hermes, meia-direita rubro-negro, a bola o encobriu e bateu no travessão. Castilho virou-se de frente para o seu gol e a bola caiu, sem que ele se movesse, em seus braços. Foram muitas emoções.
O Fluminense ganhou no duelo das torcidas e no campo. Orlando “Pingo de Ouro” marcou o gol da vitória e repetiu a dose no returno na vitória também por 1 a 0 contra o tradicional adversário.
Na última rodada do campeonato, o adversário era o Bangu sobre o qual o Fluminense tinha a vantagem de dois pontos. Os alvi-rubros venceram por 1 a 0, gol de Vermelho. Igualados em pontos perdidos, Fluminense e Bangu decidiram o título numa série melhor de três.
O Bangu possuía excelente equipe dirigida por  Ondino Viera e liderada pelo cracaço Zizinho. No primeiro jogo, o Fluminense ganhou por 1 a 0, gol de Orlando. A partida foi tumultuada. Num choque com Didi, o zagueiro Mendonça teve a perna fraturada e Mirim agrediu Orlando. Carlyle e Mirim foram expulsos. O atacante tricolor se desentendeu com Osvaldo “Topete”, desmanchando o tão bem cuidado cabelo de Osvaldo.
Para a segunda partida, Ondino fez várias alterações no time do Bangu, enquanto Zezé Moreira, devido à ausência de Carlyle, alterou taticamente a equipe. Telê, que auxiliava o meio campo pela direita, substituiu Carlyle no comando do ataque, posição em que jogava no juvenil. Zezé tirou o ponta-esquerda Joel e escalou Robson para exercer a função de Telê pela esquerda. No lugar de Telê, colocou o ex-são-cristovense Lino.
Com a vitória por 2 a 0 sobre o Bangu, dois gols de Telê, o Fluminense, há 65 anos, conquistou o campeonato carioca de 1951. Tive a oportunidade de estar presente no Maracanã. O garoto de 12 anos vibrava com a conquista de seu time.
           Os adversários e a crônica esportiva em geral chamavam a equipe do Fluminense de “timinho”, devido às vitórias de 1 a 0 em alguns jogos. Porém, a verdade é que os tricolores venceram por 1 a 0 apenas três vezes: o Flamengo nos dois turnos e o Bangu na primeira partida da melhor de três.
          Como se dizia popularmente, o Fluminense fez barba, cabelo e bigode: campeão carioca de profissionais, pentacampeonato de juvenis e campeão de  aspirantes.
Sobre a marcação por zona, criada por Zezé Moreira, e a campanha do time, as explicações ficam por conta dos depoimentos de alguns personagens que integraram à equipe campeã carioca de 1951, como Orlando “Pingo de Ouro, Píndaro, Pinheiro e Victor.

Fotos 08 - O Fla x Flu no primeiro turno do campeonato carioca de 1951 foi uma grande festa. O concurso promovido pelo Jornal dos Sports mobilizou as duas torcidas que brilharam no Maracanã. A torcida tricolor joga pó de arroz sobre os torcedores do Flamengo.

Foto 09 – Time do Fluminense antes da segunda partida da melhor de três que decidiu o campeonato carioca de 1951: em pé, Píndaro, Lafaiete, Vitor, Edson, Castilho e Pinheiro; agachados, Lino, Orlando, Telê, Didi e Robson.

 
 
A torcida do Fluminense joga pó-de-arroz sobre os torcedores rubro-negros. Tudo é festa!
 
 
Paulista ao lado de Terezinha Panda saúdam o público que lotava o Maracanã
 
 
Paulista, Terezinha Panda e Blecaute, famoso cantor intérprete da marchinha General da Banda
 
 
Time do Fluminense antes do Fla x Flu: Píndaro, Victor, Edson, Jair, Castilho e Pinheiro; Telê, Blaceute, Didi, Carlyle, Orlando e Joel
 
 
Orlando, autor do gol tricolor, sai abraçado por torcedores
 
 
Rafanelli, Mário Vianna, com dois enes, e Carlyle antes da primeira partida da melhor de três
 
 
Castilho e Nívio disputam a bola junto a linha de fundo. Zizinho e Edson observam o lance
 
 
Carlyle desmancha o topete de Osvaldo e Mirim agride Orlando
 
 
Osvaldo tenta derrubar Carlyle
 
 
Equipe tricolor antes do segundo jogo da melhor de três: Píndaro, Lafaiete, Victor, Edson, Castilho e Pinheiro; Lino, Orlando, Telê, Didi e Robson
 
 
Telê marca um de seus gols na segunda partida da melhor de três. Osvaldo está batido e Salvador observa a bola no fundo da rede banguense
 
 
Ainda no gramado, Carlyle abraça Robson após o segundo jogo
 
 
Na sede das Laranjeiras, Zezé Moreira é carregado pelos torcedores
 
 
Carlyle, artilheiro do campeonato, recebe o cheque relativo ao prêmio pelo título carioca de 1951
 
 
Orlando "Pingo de Ouro" olha o cheque relativo ao prêmio pelo título de campeão na presença do Presidente Fábio Carneiro e Mendonça
 
 
O Presidente Fábio Carneiro de Mendonça entrega o cheque a Pinheiro
 
 
Castilho recebe das mãos do Presidente Fábio Carneiro de Mendonça o cheque referente ao prêmio pelo título de campeão carioca
 
 
 
 
Mini biografias dos campeões cariocas de 1951
 





 

                                   

 

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016




                               A versão 76 da máquina do Dr. Horta 

                 Em fevereiro de 1976, com Didi no comando técnico, o Fluminense venceu o Torneio de Viña Del Mar, no Chile. Disputaram a competição além do tricolor carioca, os times chilenos do Union Española e do Everton. O tricolor carioca ganhou o primeiro jogo do Union Española por 1 a 0, gol do Doval, e empatou com o Everton de 0 a 0, conquistando o torneio.

                  Didi, que ficou no comando técnico do Fluminense até 8 de março de 1976, levou o tricolor ao 3º lugar no campeonato brasileiro de 1975. Fluminense, Cruzeiro, Internacional e Santa Cruz se classificaram como semifinalistas. Os gaúchos venceram os tricolores cariocas por 2 a 0, no Rio, e o Cruzeiro derrotou o Santa Cruz, no Recife, por 3 a 2.  Internacional e Cruzeiro decidiram o título, em Porto Alegre, e a equipe colorada com a vitória por 1 a 0 ficou com o título.

                 Jair Rosa Pinto voltou à direção técnica do Fluminense, substituindo Didi, em 10 de março de 1976, ficando até o dia 16 de junho do mesmo ano. Pinheiro dirigiu a equipe durante quatro dias até a chegada de Mário Travaglini, cuja permanência como técnico tricolor se estendeu até 9 de junho de 1977. Novamente, Pinheiro assumiu como treinador até o encerramento da temporada de 1977.

                 Nesse período vários jogadores deixaram às Laranjeiras independentemente do “troca-troca”: Assis e Silveira foram para o Esporte Clube Recife; Abel foi emprestado ao Vasco; o Coritiba comprou o passe de Wilton; Zé Maria e o goleiro Paulo Sérgio tiveram seus passes cedidos por empréstimo, respectivamente, ao Volta Redonda e ao CSA de Alagoas; e o zagueiro Pescuma, que atuou em apenas três ou quatro jogos, foi devolvido ao Corinthians dono de seu passe.

                 No primeiro ano de sua existência, a “máquina” tricolor se projetava internacionalmente, participando do famoso Torneio de Paris. Na oportunidade, o tricolor carioca terminou em 3º lugar.

                 Em 1976, já sob a direção técnica de Mário Travaglini, o Fluminense, com a nova versão da “máquina”, participou novamente do Torneio de Paris, realizando duas excelentes exibições que o levaram ao título. No dia 26 de junho, vencia o Paris Saint Germain por 2 a 0, gols de Rivelino, e dois dias depois derrotava a Seleção da Europa por 3 a 1 gols do alemão Bremmer, Paulo César, Doval e Carlos Alberto Torres (pênalti).

No dia 18 de julho de 1976, na 6ª rodada do 2º turno, Fluminense e Flamengo jogaram sob a arbitragem de Airton Vieira de Moares. Aos trinta e cinco minutos do 2º tempo, Carlos Alberto Torres fez falta em Merica e não aceitou a marcação de Sansão. Os dois discutiram e o árbitro expulsou o jogador do Fluminense. Paulo César e Pintinho reclamaram e também foram para o chuveiro.  
O tricolor ficou com oito jogadores. Logo que a partida recomeçou, Rivelino, após bater um tiro de meta, colocou a mão na coxa e seguiu para o vestiário, alegando dores na perna. A seguir, Rubens Galáxie abandonou o campo, dizendo-se contundido.
Sansão encerrou a partida, porque o Fluminense estava com apenas seis atletas, número inferior ao que a regra permite. O placar apontava o empate de 1 a 1, gols de Rivelino aos 19 minutos do 1º tempo e Paulinho aos 17 da fase final.
Transmitíamos o jogo pela Rádio América e recebemos a informação do companheiro Wilson Lucas que Sansão ofendera com palavrões os jogadores do Fluminense. Falamos que aquela atitude não era correta. Encontramos Airton, algumas semanas depois, em Ipanema. Fomos interpelados por ele que não concordava com as nossas observações sobre a sua atuação. Colocamos o microfone da emissora à sua disposição, dando-lhe o direito de resposta. Sansão não apareceu. A partida ficou conhecida como o Fla x Flu do “cai-cai”.
                 No dia 3 de outubro de 1976, mais de 127 mil pagantes compareceram ao Maracanã para assistir a decisão entre Fluminense e Vasco, em igualdade de condições com dois pontos perdidos cada um. O tempo normal de jogo terminou 0 a 0. Na segunda fase da prorrogação, aos 13 minutos, Pintinho cabeceia e a bola sobe na pequena área entre Abel e Doval. O gringo toca de cabeça e faz o gol do bicampeonato.

                 No campeonato brasileiro, que se estendeu de 29 de agosto a 12 de dezembro de 1976, o Fluminense realizou boa campanha, chegando às semifinais com o Atlético Mineiro, Corinthians e Internacional.

                 O dia da partida contra o Corinthians, dirigido por Duque, ficou conhecido como o da “invasão corintiana”. Viam-se integrantes da fiel torcida alvinegra paulista em várias partes da cidade. A Quinta da Boa Vista se transformou num Ibirapuera e Copacabana era a praia dos paulistas. O tempo chuvoso conspirou contra os tricolores. O gramado escorregadio impediu que o Fluminense desenvolvesse o seu futebol mais técnico.

                 O tempo normal terminou com o empate de 1 a 1. Na série de penalidades máximas, o Corinthians venceu por 4 a 2 e foi decidir, em Porto Alegre, com o Internacional que vencera o Atlético Mineiro, também na capital gaúcha, por 2 a 1. O time colorado ganhou por 2 a 0 e se sagrou bicampeão brasileiro. 


 
A "máquina" tricolor versão 1976: em pé, Renato, Carlos Alberto, Pintinho, Miguel, Edinho e Rodrigues Neto; Gil, Paulo César, Rivelino, Doval e Dirceu.
 
 
Na estreia diante do Bayer, Paulo César salta com o grande goleiro Mayer.

 
Didi, no campo de Álvaro Chaves, quando dirigiu a "máquina" do Dr. Horta.

 
Jair, o "Jajá de Barra Mansa" comanda um treino nas Laranjeiras.

 
Carlos Alberto Torres com o lindo Troféu do Torneio de Paris.

 
No Fla x Flu do "cai-cai", vemos o momento em que Sansão expulsa Paulo César e Pintinho. A partir da esquerda, vemos Rodrigues Neto, o repórter Wilson Lucas, Didi, Paulo César, Sansão, Rivelino, Gil e Rubens Galáxie.

 
Doval vibra após marcar o gol do título do bicampeonato estadual de 1976
 

 
Carlos Alberto, Rivelino, Gil e Doval festejam o gol do título do bicampeonato.

 
A volta olímpica dos bicampeões estaduais
 
 
A charge de Kleber Guimarães, idealizador, e Rubens A. Sixel, desenhista, referente a "máquina" tricolor versão 1976. 

 
Na semifinal do campeonato brasileiro de 1976 com o Corinthians, o estado do gramado prejudicou muito a equipe do Fluminense, superior tecnicamente ao adversário.