quarta-feira, 10 de outubro de 2018





                                O “Massacre de Montevidéu”

Após ser campeão da Taça Rio, em 1952, no ano seguinte, o Fluminense disputou a Copa Montevidéu, na capital uruguaia. A competição realizada nos meses de janeiro e fevereiro reuniu além do tricolor carioca, as equipes uruguaias do Penãrol e Nacional, Botafogo, First Vienna da Áustria, Dínamo de Zagreb (antiga Iugoslávia), Colo-Colo do Chile e Presidente Hayes do Paraguai.

Na estréia, no dia 25 de janeiro de 1953, o Fluminense empatou com o First `Vienna por 1 a 1. Dois dias depois, o tricolor venceu o Presidente Hayes por 2 a 1.  Nos dois jogos seguintes  o Fluminense sofreu duas  derrotas: Peñarol 2 a 0 e Botafogo 2 a 1.

No dia 7 de fevereiro, o Fluminense ganhou do Colo-Colo por 3 a 0. Nas duas últimas partidas empatou de 0 a 0 com o Dínamo de Zagreb  e com o Nacional.

Os participantes da Copa Montevidéu terminaram a competição nas seguintes colocações:
Nacional – campeão com 13 pontos ganhos
Botafogo- vice-campeão com 11
Peñarol – 10
Frist Vienna e Fluminense – 7
Dínamo de Zagreb – 4
Colo-Colo -3
Presidente Hayes - 1

No último jogo, o Fluminense empatou com o Nacional de 0 a 0. A boa exibição tricolor irritou os uruguaios, que apelaram para a violência. Os jogadores brasileiros sofreram sérias agressões. Jair Santana nos contou o que aconteceu:

“O Fluminense jogou bem e endureceu o jogo. Eles partiram para a agressão e houve uma briga generalizada. Levei um soco com tanta violência que parecia um soco inglês. Um dente meu enterrou na gengiva, fiquei hospitalizado e quase não retornei com a delegação. Apanhamos muito. A nossa sorte é que o Castilho pegou uma espada, acho que de um policial, quebrou na baliza e partiu para dentro dos caras e nós conseguimos chegar ao vestiário.

Na volta ao hotel, fomos agredidos novamente com pedras no ônibus. Voltei e cheguei aqui no Brasil com o lábio arrebentado e minha boca toda inchada”.

No último jogo da Copa Montevidéu diante do Nacional o Fluminense atuou com Castilho, Píndaro e Pinheiro; Jair Santana, Edson (Emilson) e Bigode; Telê, Villalobos (Orlando), Marinho, Robson e Quincas.

O Nacional jogou com Paz, Santamaria e Holdaway; Carballo e Cruz; Souto (Zunine), Ambrois, Morel (Pereira), Perez e Enrico (Souto).

William Barnes, Rimel Latorre e Juan Castaldi formaram o trio de arbitragem.

F 01 – Time do Fluminense que estreou na Copa Montevidéu: em pé, Píndaro, Jair Santana, Edson, Bigode, Castilho e Duque; agachados, Telê, Orlando, Villalobos, Didi e Quincas.
F 02 – Momento em que Orlando é agredido com um soco pelo zagueiro Holdaway.
F 03 – Orlando se dirige a um policial após ser agredido.
F 04 – Castilho neutraliza a investida do ataque uruguaio.
F 05 – O “Pingo de Ouro” é examinado pelo Dr. Dourado Lopes na presença de Zezé Moreira.
F 06 – Didi, com o supercílio direito machucado, descansa após ser atendido.
F 07 – Marinho, com o curativo na orelha esquerda, já de volta ao hotel.
F 08 – Jair Santana com o lábio inferior ferido.
F 09 – Matéria publicada na revista Esporte Ilustrado sobre às agressões sofridas pelos jogadores do Fluminense.


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quinta-feira, 27 de setembro de 2018




                            Rui de Freitas, o guru de várias gerações


Todas as quartas-feiras, no CIEP Nação Rubro-Negra, na Gávea, ex-jogadores de basquetebol se encontram e jogam animadas peladas. Lá encontrei Gedeão, Ardelim (ex-Botafogo), Marcelo Cocada (ex-Flamengo e Fluminense), Rogério “Touro” (ex-Botafogo) e muitos outros.

O grupo é organizado e as peladas são divididas por faixas etárias. Soube que o líder é o Paulista, ex-Vasco, e seleção brasileira. Mas, confesso que dessa vez não fui para assistir as peladas e rever essa turma que trouxe a minha lembrança os bons tempos das transmissões pelas ondas da Emissora continental, 100% esportiva, ao lado do saudoso e querido amigo Noli Coutinho, lá pelos ídos dos anos 60.

 Fui ao encontro do guru desses jovens veteranos, segundo eles próprios. Sentado me aguardando estava um jovem de 85 anos, que antes de conversar comigo, foi jogar sua sagrada pelada. Depois, então, tive a alegria de ouvir Rui de Freitas, no dia 20 de fevereiro de 2002:

“Em Pernambuco, onde eu vivi grande parte da minha infância eu jogava futebol. Nasci no Rio, mas, meu pai foi ser Chefe de Polícia, em Recife, e eu tive que acompanhá-lo. Quando retornamos ao Rio, em 1930, fomos morar, no Riachuelo, e lá jogava futebol em times organizados, que participavam de festivais aos domingos. Comecei a jogar basquete, nessa época, com 14 anos, na Associação Cristã de Moços, na Rua Araújo de Porto Alegre.

Meu pai foi preso por questões políticas, conseguiu escapulir e minha família foi para o Uruguai. Em 1932, fui campeão da 3a divisão, jogando no Biguá. No início de 1936, voltamos para o Rio e fomos, novamente, morar no Riachuelo. Quando o time foi formado para disputar o campeonato, eu já entrei como titular. De 36 a 41, sempre disputamos o título. Fomos vice-campeões, em 36, numa melhor de três com o Grajaú; em 37 e 38 conquistamos o bi; em 39 o Botafogo foi campeão; e em 40/41 novamente fomos bicampeões. Nosso time base em 36/37 era: Adílio, Sebastião, Jorge, Camilo e eu.

Fiquei no Riachuelo até 1942. Saí porque um dia veio uma nova diretoria, que expulsou um cara que fez umas trapalhadas. A turma do basquete, que tinha um prestígio grande, apoiou a diretoria. Dois dias depois o filho do presidente fez também uma trapalhada, mas não o colocaram para fora. Aí, eu disse: se ele não sair, saio eu. Como o presidente ajudava o clube com dinheiro, nada aconteceu e eu saí. Fui para o América, onde fiquei dois anos. Nosso time era: Marinho, Helinho, Passarinho, Jagunço, Geraldo, eu e outros. Jogamos mano a mano com as outras equipes, mas não conquistamos títulos”.

O jogo entre Associação Atlética Grajáú e Flamengo praticamente decidiu o título carioca de 1950. O Flamengo tentava o tricampeonato e perdeu para Associação Atlética Grajaú. Rui importante personagem desse momento histórico, nos contou como foi a partida:

“Em 1950, a Associação Atlética Grajaú montou o time com alguns jogadores do América e mais Montanha e Cleto, que veio do Riachuelo. A partir de 48, o Flamengo passou a dominar o basquete carioca, até então sob a liderança do Botafogo. O Flamengo foi bicampeão em 48/49.

Na decisão de 50, o jogo foi o tempo todo mano a mano, até o Cleto fazer a cesta decisiva. Naquele tempo os resultados eram muito mais baixos. Primeiro porque se jogava pouco na cesta e, também, não tinha tempo. O sujeito ficava com a bola na mão e só jogava na certa.

Nós naquele jogo fizemos o que o Simões me ensinou: quando a bola saía, o cronômetro não parava; nós estávamos atrás, então nós colocávamos um companheiro para entrar e o que saía voltava imediatamente; com isso o tempo corria muito pouco; quando nós passamos no marcador paramos de fazer isso, para o tempo passar e acabamos vencendo o jogo. O Simões era craque, jogava no Tijuca e era muito meu amigo.

O time do Flamengo era muito bom. Jogavam Algodão, Godinho, Fernando, Tião, Alfredo. O técnico era o Kanela”.

Na história do basquetebol brasileiro um dos mais gloriosos episódios foi a conquista do bronze, nas Olimpíadas de Londres, em 1948:

“Foi um exemplo de como o esporte em geral, no Brasil, não é bem tratado. Tivemos que levar goiabada e outros alimentos. Não tínhamos médico, massagista. Era um médico para toda a delegação, só queria saber das meninas da natação. Num jogo em que o Alfredo se machucou, ele apareceu e quando foi atender o Alfredo, o Reis Carneiro, Presidente da CBB disse: “Tira a mão daí. Não mexe no meu jogador. Não venha agora para cá”.

Nós podíamos levar 12 jogadores e levamos só 10. Tivemos a contusão do Évora, um companheiro amarelou, não digo o nome, e o Daiuto, que era o técnico, não tinha confiança em três jogadores.

Quando chegou a partida contra a Inglaterra, que era a seleção mais fraca, alguém da chefia da delegação disse que era importante o saldo de cestas. Corremos muito e fizemos 72 pontos. No jogo seguinte, cansados, sem massagista, sem médico, não ganhamos. Para ganharmos depois do México foi um custo. O time base era: Algodão, Brás, Massene, Alfredo e eu. De São Paulo tinham quatro e o resto era do Rio.

A medalha de bronze valeu como se fosse de ouro. Mas, quando eu entrei em Wembley, no desfile inaugural, vendo todo aquele cenário, eu disse para mim mesmo: não preciso ganhar, já estou satisfeito”.
Quatro anos depois, em Helsinki, na Finlândia, Rui de Freitas defendia, novamente, as cores brasileiras, como atleta olímpico:

“O espírito não era o mesmo de 48. Por exemplo, foi o time do Flamengo. O técnico foi o Pitanga, que era na minha opinião o que mais entendia de basquete. Ele dizia tira aquela cadeira dali e não tiravam a cadeira. Como ele não queria briga, ninguém o atendia.

A turma do Flamengo passou a dominar. Jogava o time do Flamengo que não era grande coisa. O Flamengo jogava muito com o Kanela mandando. Kanela tinha algumas coisas muito boas, mais ganhava fazendo outras coisas que não deveria fazer. O Zé Luís, de Minas Gerais, entrou muito bem e a turma do Flamengo começou a pressionar.

 Um dia no vestiário quase o pau come. Aí o Mário Pereira, que era dirigente da delegação do Brasil, prendeu o Zé Luís no alojamento. Quando Reis Carneiro, que era um homem firme, soube suspendeu a proibição imposta ao Zé Luís. Nosso rendimento podia ter sido melhor se não fosse a desunião e a omissão do Pitanga diante de determinados fatos”.

A partir da perda do tricampeonato, em 50, o Flamengo tomou conta do basquete carioca, chegando ao decacampeonato em 1960. Rui explicou as razões desse domínio rubro-negro:

“Acontece que o Flamengo era um time muito bom e se reforçando com jogadores de outros clubes enfraqueceu os adversários. Algodão veio do Aliados, Alfredo, do Vasco, Mário Hermes, de Niterói e outros.

O time de A.A. Grajaú, ainda, disputou mais um ano e se desfez. Depois das Olimpíadas de 52 eu parei e fui ser técnico do Sírio e Libanês. No Sírio, jogavam Ardelim, Gedeão, Roberto.

Na histórica partida de 55, além da sorte do Flamengo, nós desconfiamos que o cronômetro não correu. Faltavam 7 segundos, o Sírio tinha dois lances livres e o Olivieri perdeu os dois; o Algodão pegou a bola, jogou para o Alfredo no meio da quadra; o Alfredo pegou a bola, bateu devagar, atravessou a quadra, balançou o corpo e deu para o Arthur, que enganchou; a bola não entrou, veio o Guguta, deu um tapa e fez a cesta. Tudo isso faltando 7 segundos. Até hoje fica a interrogação: parou ou não o cronômetro?”

Togo Renan Soares, o Kanela, foi um personagem altamente polêmico no mundo do basquetebol. Algumas pessoas afirmam, que o basquetebol tem um divisor d’água : “antes e depois do Kanela”. Rui deu sua opinião:

“O Kanela teve sua influência, mas não essa influência toda. Kanela tinha uma coisa de bom: ele tratava seus jogadores a pão-de-ló. Procurava resolver qualquer problema. Mas, também, obteve muitas vitórias com ações não muito legais. Ele desmanchou o basquetebol carioca, com o Flamengo ganhando tudo sempre. Desestimulou os adversários e, também, os juízes sempre tinham medo do Kanela, porque ele era bravo.

Taticamente, ficou a mesma coisa. Contra ataque sempre houve. Só que o Kanela gostava muito do contra ataque. Ele gostava da correria e tinha o Mário Hermes, cuja altura ninguém tinha naquela época. Além disso, a turma do Flamengo jogava bem”.

Com 85 anos, ainda, jogando com os seus companheiros, Rui de Freitas, elegeu os grandes nomes do basquete brasileiro em todos os tempos:

“Celso Meier, o General, que jogava no Tijuca; Simões, o Coronel, também, do Tijuca; Guilherme, do Botafogo; Wlamir, Pecente e Amauri. Quanto ao Algodão era muito útil a equipe, marcava bem, mas não era um craque.

Com relação aos técnicos destaco o Pitanga, que conversava muito comigo e era professor da Universidade do Brasil. Ele entendia mesmo do negócio.

A maior vitória do Brasil em todos os tempos foi o título do pan-americano, com Oscar, Marcel e outros, porque batemos o time norte-americano, com jogadores da NBA. Começamos com o “tiro ao pombo”, isto é, mandamos bola para o alto e acertamos todas.

 Foi uma vitória fantástica. Então, passaram a acreditar que jogar a bola para o alto era o certo. Com isso o Brasil não ganha uma desde quando? O Oscar, que tem a mão fantástica, está no Flamengo que chegou em 7o lugar, no ano passado. Arremessam quando devem e quando não devem arremessar. Podem ganhar de um grande time, como podem perder de uma equipe inferior, como aconteceu no próprio pan-americano contra o México”.

Rui de Freitas encerrou a entrevista afirmando:

“Meu melhor momento foi a conquista da medalha de bronze, na Olimpíada de Londres. Com todas as dificuldades chegamos ao pódio.

Nunca tive uma grande decepção. Para os jogadores de hoje digo que eles devem ter mais calma. O esporte é uma brincadeira. Tenho visto violência dentro e fora da quadra. Perder e ganhar é do esporte, não levem isso a ponta de faca”.

Nascido em 24 de agosto de 1916, Ruy de Freitas completaria este ano 102 anos.

 F 01 – Quinteto titular do Riachuelo, campeão carioca de 1937: Adílio, Sebastião, Tripinha, Luiz e Ruy.

F 02 – Ruy, terceiro agachado a partir da esquerda, na seleção carioca campeã brasileira.

F 03 – Em 1942, Ruy defendeu a equipe de voleibol do Fluminense. Vemos a partir da esquerda, Pacheco, Porto, Peter, Jonas, Marcondes, Ruy de Freitas e Afonso.

F 04 – Ruy na partida entre Associação Atlética Grajaú e o Halem Globetroters, em 1951.

F 05 – Domingos Araújo, locutor esportivo da Emissora Continental, acompanha a entrevista dos
técnicos Ruy de Freitas e Kanela, após a emocionante vitória do Flamengo sobre o Sírio e Libanês por 45 a 44 no campeonato carioca de basquetebol de 1955.

F 06 – Entrevista de Ruy de Freitas à Revista do Esporte.


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                                          O bronze com brilho de ouro

                                                                                                                    
           O Constellation, da Panair do Brasil, na cabeceira da pista do Aeroporto Internacional do Galeão, hoje Antônio Carlos Jobim, se preparava para a decolagem. O comandante acelerava os motores, imprimia velocidade e alçava vôo. O destino era Londres, capital da Inglaterra.

            No dia 24 de julho de 1948, naquela aeronave estava a delegação brasileira masculina de basquetebol rumo às Olimpíadas. No ano anterior, perdemos o título sul-americano para os uruguaios, no Ginásio do Vasco da Gama, em São Januário. A seleção viajara desacreditada, sem médico, roupeiro e preparador físico.  Embarcavam para Londres, apenas, dez jogadores e o técnico Moacir Daiuto.

Mário Hermes, grande pivô do Flamengo e de vários selecionados cariocas e brasileiros, externou seu sentimento por não ter participado das Olimpíadas de 48 e nos contou alguns fatos que antecederam a ida da seleção àqueles Jogos Olímpicos:

“Eu era jogador da segunda divisão e o Kanela me convidou para os pré-olímpicos aqui no Rio. Mas, eu sentia que era um corpo estranho. Tinham os cobrões e eu um guri da segunda divisão. O Guilherme, do Botafogo, quando retornou de Ponta Grossa, começou a treinar e me deu a maior força.

Fiquei um mês sem sair da Escola Naval, onde estudava. Quando saí tinham sido convocados dez jogadores e poderiam convocar doze. A questão é que não se acreditava nas possibilidades do basquete. Eu fiquei com vergonha e não me coloquei à disposição da seleção”.

Togo Renan Soares, o popular Kanela, já era um técnico consagrado pelas suas conquistas à frente das equipes do Botafogo e do próprio Flamengo para onde se transferiu, em 1948. Mesmo não sendo o técnico escolhido pela Confederação Brasileira de Desportos, Kanela não se conformou com a ausência de Guilherme e lutou até o fim pela sua permanência na seleção, como nos contou Mário Hermes:

“O Guilherme não foi escolhido e, obrigatoriamente, tinha que ser escolhido. Ele desequilibrava uma partida com a sua altura e o volume do seu corpo. Ficava ali embaixo da cesta o tempo todo que quisesse. Se ele tivesse ido nós traríamos a medalha de prata.

Kanela me contou que foi tomar satisfação na CBD, porque o Guilherme não estava na delegação, A desculpa foi que os dentes do Guilherme estavam ruins. Só não digo que o Kanela conhecia Deus e todo mundo, porque não sei se ele conhecia Deus. Pegou o Guilherme e levou ao melhor dentista do Rio. Chegou às sete da manhã e saiu às quatro da tarde. Kanela voltou à confederação e lá chegando, falou que o Guilherme, agora, terá que ser convocado. Veio outra desculpa: ele não iria porque era indisciplinado. Aí, o Kanela deu um soco no presidente da confederação.
Kanela não era o técnico da seleção. Não aceitavam o Kanela como técnico, embora na minha opinião, já naquela época, ele fosse o melhor. Kanela não era uma pessoa benquista. Ele criava muito caso”.

Finalmente, chegou o dia da estréia.  Pela frente a Hungria, vice-campeã européia, e a seleção venceu por 45 a 41. O extraordinário Algodão foi o cestinha com 15 pontos. Com sabor de vingança, em razão da derrota na final do sul-americano, o Brasil venceu os uruguaios por 36 a 32. Alfredo da Mota marcou 14 pontos e Algodão foi o segundo cestinha com 12. Mostrando categoria ganhamos do Canadá por 57 a 35. Com 23 pontos, Alfredo da Mota foi, novamente, o cestinha brasileiro.

 No último jogo da fase classificatória, vencemos com folga os donos da casa pelo placar de 76 a 11 e Alfredo da Mota marcou 16 pontos. Nas quartas-de-final conseguimos uma vitória apertada diante da Tchecoslováquia por 28 a 23. Alfredo da Mota, Évora e Massinet foram os cestinhas com 5 pontos.

Fomos para a semifinal enfrentar os franceses e o cansaço nos levou a derrota por 43 a 33, na opinião de Ruy de Freitas, um dos heróis da campanha de Londres e grande personagem da história do basquete brasileiro:

“Foi um exemplo de como o esporte no Brasil não é bem tratado. Tivemos que levar goiabada e outros alimentos. Não tínhamos médico, massagista. Era um médico para toda a delegação, só queria saber das meninas da natação. Num jogo em que o Alfredo se machucou, ele apareceu e quando foi atender o Alfredo, o Reis Carneiro disse: “tira mão daí. Não mexe no meu jogador. Não venha agora pra cá”.

Nós podíamos levar doze jogadores e levamos dez. Tivemos a contusão do Évora, um companheiro amarelou, não digo o nome, e o Daiuto, que era o técnico, não tinha confiança em três jogadores. Quando chegou a partida contra a Inglaterra, que era a seleção mais fraca, alguém da chefia da delegação disse que era importante o saldo de cestas. Corremos muito para fazer pontos. Contra a França, cansados, sem massagista, sem médico, não ganhamos. Para vencermos depois o México, foi um custo.

A medalha de bronze valeu como se fosse ouro. Mas, quando eu entrei em Wembley, no desfile inaugural, vendo todo aquele cenário, eu disse para mim mesmo: não preciso ganhar, já estou satisfeito”.

Na disputa da medalha de bronze, Alfredo da Mota confirmou sua condição de cestinha da seleção e marcou 26 pontos. O Brasil venceu por 52 a 47 e conquistou o bronze que no peito de cada um desses heróis eternamente brilhará como ouro, simbolizando a garra, superação, dignidade, amor ao esporte e a certeza do dever cumprido.

F 01 – Integrantes da delegação brasileira nas olimpíadas de 1948, lêem o jornal O Globo. Destacamos na foto Ruy de Freitas, Ademar Ferreira da Silva,  Alfredo da Motta e o técnico Moacir Daiuto.

F 02 - Nossos heróis olímpicos que conquistaram a medalha de bronze, em Londres: Pacheco, Alfredo da Mota, Algodão, Massinet, Alexandre e o técnico Moacir Daiuto; Marson, Vinicius, Ruy de Freitas, Évora e Braz.
F 03 – Lance da partida entre Brasil e México que decidiu a medalha de bronze. Vemos Algodão, Manisset, com a bola, e Ruy de Freitas.



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segunda-feira, 17 de setembro de 2018




                    O ano de 1943 na história do São Cristóvão

Em 1943, há 75 anos, três acontecimentos foram marcantes na história do São Cristóvão de Futebol e Regatas.
No início da década de 40 concretizava-se o sonho de Rodolfho Maggioli. São Cristóvão AC e Clube de Regatas São Cristóvão se fundem em 13 de fevereiro de 1943, surgindo o atual São Cristóvão de Futebol e Regatas.
Três meses depois, o novo clube conquistava o Torneio Municipal. Foram sete vitórias, um empate e apenas uma derrota. Sob o comando técnico de Abel Picabéa foram campeões: Joel e Veliz (goleiros), Augusto, Mundinho, Bianchi, Papeti, Castanheira, Santo Cristo, Alfredo, Caxambu, Nestor, Magalhães, Pelado, João Pinto e Dodô.
A equipe cadete obteve os seguintes resultados:
Bonsucesso 2 x 0 – Alfredo e Caxambu
Vasco 2 x 0 – Nestor e Magalhães
Bangu 4 x 3 – Alfredo (2), Nestor e Caxambu
Madureira 4 x 0 – Caxambu (2), Santo Cristo e Alfredo
Botafogo 2 x 5 – Alfredo (2)
Flamengo 4 x 1 – João Pinto (2) e Nestor (2)
América 1 x 0 – João Pinto
Fluminense 4 x 2 – Nestor (2), Santo Cristo e Alfredo
Canto do Rio 6 x 6 – Santo Cristo (3), João Pinto (2) e Alfredo
No campeonato carioca, o São Cristóvão realizou outra bela campanha, terminando em 3º lugar. Faltavam quatro rodadas e a equipe alva era líder. Vieram três derrotas seguidas: 5 a 3 para o Bangu, na Rua Ferrer; 3 a 1 diante do Madureira, em Conselheiro Galvão; e 5 a 1 para o América, em São Januário. Na última rodada, Alfredo voltou ao time e o São Cristóvão venceu o Fluminense por 3 a 1 e deu o bicampeonato ao Flamengo.
Entrevistei Walter Magalhães em sua residência, no Engenho de Dentro, no dia 2 de junho de 2000. Magalhães, que só vestiu, como profissional, a camisa do São Cristóvão, nos contou a respeito da participação da equipe cadete no Torneio Municipal e no campeonato carioca:
“Em 43, fomos campeões do Torneio Municipal e no campeonato estávamos até as quatro últimas rodadas na frente do Flamengo e do Fluminense. Devido a uma contusão, Alfredo, nosso armador, ficou de fora três partidas. Perdemos para o Bangu por 5 a 3, lá na Rua Ferrer. Eles soltavam fogos e tínhamos medo de um foguete bater na nossa cara, quando íamos bater um lateral.
As bombas estouravam atrás do gol do Joel, que ficava assustado e soltava a bola. Depois perdemos para o Madureira por 3 a 1, em Conselheiro Galvão, e para o América por 5 a 1, em São Januário. Aí voltou o Alfredo ao time. Vencemos o Fluminense por 3 a 1, demos o bicampeonato ao Flamengo e terminamos em 3 º- lugar”.
O time campeão do Torneio Municipal, que perdeu apenas para o Botafogo por 5 a 2, foi o mesmo do campeonato: Joel, Mundinho e Augusto; Bianchi, Papeti e Castanheira; Santo Cristo, Alfredo, Caxambu, Nestor e Magalhães . O artilheiro do torneio foi Heleno de Freitas, do Botafogo, com 11 gols e o técnico do São Cristóvão era Abel Picabéa.
Picabéa tinha sido antes half do São Cristóvão, formando a linha média com Dodô e Afonsinho. Ele tinha carta branca e quando dava instrução só tinha o diretor de esporte lá . Quando tentava entrar outro diretor dizia que não: “aqui só quem é jogador. Fala com eles depois do jogo”. As críticas feitas ao jogador eram respondidas por ele diante da diretoria. Ele assumia o time”.
Os adversários sempre encontravam dificuldades para conseguir bons resultados, em Figueira de Melo, e o São Cristóvão manteve-se invicto por longo tempo jogando em casa :
            “Conhecíamos o campo palmo a palmo, onde o nosso time já treinava há dois anos. Tínhamos muito conjunto. Quando um jogava a bola, o outro sabia o que fazer e naquele tempo no futebol quem corria era a bola e não o jogador. Em dois lances a gente ia ao gol, ainda mais em Figueira de Melo, que era um campo de dimensões pequenas. Dia de treino os operários das fábricas dali, largavam o trabalho e iam lá encher o campo para ver a gente treinar. Era maravilhoso, sabe”.

            Ainda, no ano de 1943, durante a partida São Cristóvão e Flamengo, no Estádio de Figueira de Melo, o São Cristóvão perdia para o Flamengo por 1 a 0, gol de Vevé aos 13 minutos de jogo. Cinco minutos depois, parte das arquibancadas desabou e o jogo foi suspenso.

            A partida válida pelo campeonato de carioca de 1943 prosseguiu 72 horas depois, em São Januário. Aos 33 minutos do 2º tempo João Pinto empatou. Santo Cristo, ainda perdeu um pênalti defendido por Jurandir. Com o desabamento das arquibancadas o público invadiu o campo.

Foto 01 - O São Cristóvão obteve importante triunfo sobre o Flamengo, no Torneio Municipal de 1943. Em General Severiano, a equipe alva derrotou o rubro-negro por 4 a 1, gols de João Pinto, Nestor, Nestor e João Pinto. Pirilo marcou para o Flamengo.
Mundinho disputa a bola com o centroavante rubro-negro.

F 02 – Na partida em que o São Cristóvão derrotou o Flamengo por 4 a 1, o goleiro Joel prepara-se para praticar a defesa.

Foto 03 - Prosseguindo na sua caminhada para o título do Torneio Municipal de 43, o São Cristóvão ganhou do América por 1 a 0, em São Januário, gol de João Pinto. Time cadete que venceu os rubros: em pé, Castanheira, Augusto, Veliz, Pelado, Papeti e Bianchi; agachados, Santo Cristo, Alfredo, João Pinto, Nestor e Magalhães.

Foto 04 – Na vitória diante do Fluminense por 4 a 2, Nestor abre a contagem com potente chute para o fundo da rede de Batatais.
  
Foto 05 – Equipe do São Cristóvão campeã do Torneio Municipal de 1943: Joel, Mundinho, Augusto, Bianchi, Papeti, Castanheira, Santo Cristo, Alfredo, João Pinto, Nestor, Magalhães e o técnico Picabéa.

Foto 06 – A revista Esporte Ilustrado homenageou o São Cristóvão publicando o quadro dos campeões do Torneio Municipal de 1943.

Foto 07 - Na 7a rodada do campeonato carioca de 1943, o São Cristóvão assumia a liderança ao vencer o América por 5 a 3, em Figueira de Melo. Marcaram os gols Esquerdinha (América 1 a 0), João Pinto (1 a 1), Maneco (América 2 a 1), Nestor (2 a 2); João Pinto (SC 3 a 2), Magalhães (4 a 2), Santo Cristo (5 a 2) e Jorginho (3 a 5). O São Cristóvão ganhou com: Joel, Augusto e Mundinho; Bianchi, Papeti e Castanheira; Santo Cristo, Alfredo, João Pinto, Nestor e Magalhães. Vemos o 2o gol do São Cristóvão marcado por Nestor. O goleiro Walter caminha para apanhar a bola no fundo da rede e o zagueiro Gritta está de cabeça baixa.

Foto 08 - No campeonato carioca de 1943, o São Cristóvão brilhou novamente, terminando em 3o lugar e João Pinto foi artilheiro com 26 gols. Líder do campeonato quando faltavam três rodadas para terminar a competição, os cadetes venceram o Vasco por 6 a 4, em Figueira de Melo. João Pinto abriu a contagem; Lelé (pênalti) empatou e Chico virou o placar; Santo Cristo (pênalti) igualou o marcador e Lelé (pênalti) desempatou; João Pinto fez o 3o gol e Bianchi (contra) colocou o Vasco em vantagem; e João Pinto, Nestor e João Pinto levaram o São Cristóvão a vitória. Lance de perigo para o goleiro Roberto, do Vasco. A bola segue na direção da meta e choca-se com o travessão.
  
Foto 09 -  Desabamento das arquibancadas no jogo São Cristóvão e Flamengo, em Figueira de Melo, com o público invadindo o campo.


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terça-feira, 4 de setembro de 2018




                                                   “Dá-lhe Rigoni”

No dia 11 de junho de 2018, o Jóquei Clube Brasileiro realizou mais uma edição do Grande Prêmio Brasil. Desde a vitória do tordilho Mossoró, montado por Justiniano Mesquita, em 1933, já se passaram 85 anos. O evento sempre é muito especial para os amantes do turfe.

A história do mais importante evento do turfe brasileiro foi escrita por grandes vencedores entre cavalos, jóqueis e treinadores. Nomes que se eternizaram na nossa memória: Mossoró, Albatroz, Helíaco, Tirolesa, Ponte Canet, Gualicho, El Arogonês, Mangagá; Justiniano Mesquita, Carlos Lavor, Juvenal Machado, Osvaldo Ulhôa, Jorge Ricardo, Luiz Rigoni; Ernani de Freitas, Alcides Morales, Osvaldo Feijó e tantos outros.

O momento me traz a lembrança o nome do maior jóquei de todos os tempos: Luiz Rigoni. Nascido em 1926, em Curitiba, no Paraná, ele nos deixou em 3 de agosto de 2006, em São Paulo, há exatamente 12 anos.

Desde garoto, Rigoni montava os cavalos de corrida de propriedade de seu pai. Em 1941, apareceu pela primeira vez em público, no Paraná, montando a égua Namorada, obtendo o 3º lugar.

Em 1943, Luiz Rigoni chegava ao Rio. Ainda aprendiz, recém chegado de sua terra natal, o Paraná, já demonstrava as qualidades que mais tarde o elevaram ao lugar de melhor jóquei brasileiro.

Sua primeira grande emoção foi à conquista do Grande Prêmio São Paulo, em 1948, com a égua Garbosa Bruleur, derrotando o famoso e invicto Helíaco. No ano seguinte voltou a vencer a principal prova do turfe paulista com Saravan.

Lá pelos idos da metade dos anos 50 até o início da década seguinte freqüentei o hipódromo Gávea e assisti memoráveis vitórias de Luiz Rigoni. Uma está guardada até hoje na minha memória. Em 1954, Rigoni ganhou pela primeira vez o Grande Prêmio Brasil com El Aragonês. Manteve-se em último até os 700 metros finais, quando iniciou uma atropelada que ficou na história do turfe brasileiro. El Aragonês venceu Joiosa, conduzida por Emigdio Castillo, por meio corpo.

Luiz Rigoni voltou a vencer o Grande Prêmio Brasil, em 1970 e 1971, respectivamente, com Viziane e Terminal. Ele ficou conhecido como o “Homem do violino”. Tinha o hábito de passar o chicote entre as orelhas de suas montarias.

As apresentações de Rigoni eram acompanhadas pelos seus admiradores com os gritos de “Dá-lhe Rigoni”. A música e o cinema o homenagearam com o tango “Dá-lhe Rigoni” e o documentário mostrando sua vida.

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Em entrevista a Veja, em 1984, Luiz Rigoni declarou “Todo homem que monta em cavalo a quase 80 km/hora tem que ser respeitado. Afinal, se não houvesse perigo, os páreos não seriam acompanhados por uma ambulância”.

F 01 – Admiradores de Luiz Rigoni incentivavam o grande jóquei com o grito que ficou na história do turfe brasileiro: “Dá-lhe Rigoni”.
F 02 – A chegada do Grande Prêmio Brasil de 1954 com El Aragonês após sensacional atropelada.
Fotos 03 a 07 e 09 e 10 – Entrevistas de Luiz Rigoni à Revista do Esporte.
F 08 – Vista do Hipódromo da Gávea, publicada pela Revista do Esporte, palco de inesquecíveis apresentações de Luiz Rigoni.