quinta-feira, 19 de julho de 2018





         “Pingo de Ouro”, o artilheiro que parou o “Expresso”

       Orlando “Pingo de Ouro”, um dos melhores atacantes do Fluminense nas décadas de 40 e 50, seguiu a carreira de jogador de futebol influenciado por seus quatro irmãos, especialmente, Tará, o mais velho, que foi um dos maiores jogadores de todos os tempos no futebol pernambucano.

        Seu pai não queria ver seus filhos como jogadores de futebol, porém não conseguiu seu objetivo. Orlando, o mais novo, dá seus primeiros passos no juvenil do Clube Náutico Capibaribe, em 1941. No ano seguinte, com 16 anos, sem passar pelos aspirantes, é titular do Náutico, onde conquistou dois títulos estaduais. Convocado para a seleção pernambucana, em 1944, enfrentou os gaúchos em São Paulo.

Perguntado sobre a influência do futebol carioca, em Pernambuco, numa época em que não existia televisão, Orlando esclareceu:
“O futebol carioca despertava muito mais interesse do que hoje. Hoje, com esse intercâmbio, eles passaram a ver que o futebol daqui não é tão melhor do que o de lá. Naquela época, que não tinha televisão, nós tínhamos os jogadores do Rio e de São Paulo como verdadeiros ídolos. Pessoas que estavam num plano muito superior, mesmo inatingível. Tínhamos verdadeira loucura e ouvíamos os jogos pelo rádio de São Paulo e, principalmente, do Rio. Eu era Fluminense e fã do Tim e do Romeu e sonhava jogar no Rio pelo Fluminense”.

A vinda de Orlando para o Fluminense, segundo seu relato foi um pouco acidentada:
“Eu era fã do Fluminense, louco para vir para o Rio, que naquela época era o paraíso do Brasil. Era o sonho de todo mundo, não só do jogador de futebol. Quem morava lá para o norte ou em qualquer lugar do Brasil sonhava em conhecer o Rio.

Eu chegando aqui me admirei com a minha popularidade, porque lá no norte não sabia de nada. Ao fazer escala no Rio, antes de viajar para São Paulo onde enfrentaríamos os gaúchos, fui recebido pelo Jorge Fernandes, Oficial da Marinha, que me indicara ao Fluminense, e com ele fui direto para Álvaro Chaves. Lá chegando me mostraram um contrato e eu naquele afã de jogar pelo Fluminense, assinei um contrato em branco”.

No ano anterior, 1943, o Fluminense já se interessava por Orlando, porém o Náutico não negociou seu passe. Na renovação de contrato por um ano, Orlando exigiu a estipulação de seu passe, para facilitar qualquer futura transação, mesmo o clube pernambucano não querendo liberá-lo para nenhuma outra agremiação.

Neto Campelo Júnior, presidente do Náutico e botafoguense de coração, queria vê-lo vestindo a camisa alvi-negra. Telefonou para Carlito Rocha oferecendo o jogador e o presidente do Botafogo o perguntou: “Que tamanho ele tem?”. O doutor Neto respondeu: “Ele é baixinho”. Carlito encerrou o assunto: “Jóquei eu já tenho dois aqui, Franquito e Demóstenes”.

Orlando fez excelente partida contra os gaúchos, despertando o interesse dos grandes clubes paulistas. Mas, o contrato em branco, anteriormente, assinado o prendia ao clube de seu coração.

Ao retornar a Recife, depois de servir a seleção pernambucana, Orlando sofreu uma séria lesão no joelho, jogando pelo Náutico e o Fluminense não queria mais contratá-lo, diante das notícias publicadas nos jornais do Rio: “Orlando inutilizado para o futebol”.

A pedido da diretoria do Fluminense, Jorge Fernandes o levou a uma junta médica, cujo parecer atestava que Orlando estava em condições de continuar praticando o futebol.

Orlando chega às Laranjeiras
“Vim para o Rio, mas não podia nem dobrar a perna, porque ela saía do lugar. Tive uma ruptura do menisco e dos ligamentos. Eu e o Rodrigues, que tinha vindo de São Paulo.

Minha estréia foi contra o Bonsucesso. Mas, meu primeiro jogo nas Laranjeiras foi contra o América. Estava 1 a 1 e no finalzinho do jogo fiz o segundo gol. O jogo foi pelo campeonato carioca de 1945”.

Em 44, o Fluminense não fez um bom campeonato carioca e renovou o time para o ano seguinte, contratando entre outros Carango, Geraldino, Haroldo, egressos do Canto do Rio. No ano de 45, a equipe em formação, também, não faz um bom campeonato.

Orlando e o título de supercampeão em 1946:
“O êxito veio em 46, quando o Fluminense contratou Ademir e chegou ao título de supercampeão”.

Após a interferência do companheiro Jaques Lílen, que escalou a equipe supercampeã com Robertinho, Gualter e Haroldo; Paschoal, Telesca e Bigode; Pedro Amorim, Simões, Ademir, Orlando e Rodrigues, Orlando prosseguiu seu relato sobre a campanha de 46:
“Os grandes times de qualquer época você guarda. O torcedor do Botafogo guarda o de 48. Eu que não sou Vasco e na época nem pensava em jogar futebol, jamais esqueci de Jaguaré, Brilhante e Itália; Tinoco, Fausto e Mola; Paschoal, Paes, 84, Mario Matos e Santana. Futebol é conjunto. Não adianta ter uma quantidade enorme de craques e não conseguir formar um conjunto.

 Em 46, além dos bons valores que o Fluminense tinha, contratou o Ademir, que era o Pelé da nossa época. Ademir veio dar uma grandeza ao time, muita personalidade, porque ele era um artilheiro. Interessante, Ademir jogou no Vasco e todo mundo dizia que o Jair carregava o Ademir. Ele era um jogador maravilhoso e deu cartaz a mim, ao Jair, porque nós dávamos a bola e ele sabia se colocar maravilhosamente bem. Ele era um artilheiro nato e enaltecia o nosso passe, fazendo gols.

Mas, a grande campanha mesmo foi no supercampeonato, porque nós disputamos o campeonato e terminaram empatados quatro times: Fluminense, América, Botafogo e Flamengo. Você vê a superioridade do Fluminense, principalmente de seu ataque, que no primeiro jogo contra o América começamos perdendo por 2 a 0 e acabamos vencendo por 8 a 4. No returno, ganhamos de 6 a 2. Pegamos o Flamengo, empatamos 1 a 1, no 1o turno e ganhamos no 2o turno por 3 a 1. Vencemos o Botafogo por 3 a 0 e depois por 1 a 0, gol de Ademir”.

No período de 47 a 50, o Fluminense não conquistou nenhum título carioca. Orlando expôs as razões do jejum tricolor e as que levaram a conquista do campeonato carioca em 51:

“Ademir voltou para o Vasco; Pedro Amorim parou de jogar, Paschoal e Telesca estavam em final de carreira. Eu fui o único jogador de 46, que se mantinha, ainda, no Fluminense, quando da conquista do título de 51. Bigode, em 51, se transferiu para o Flamengo.

O Fluminense conseguiu Zezé Moreira. Ele foi um grande timoneiro e impôs uma rígida disciplina tática. O Fluminense era conhecido na época como timinho. Não era timinho, porque tinha Castilho, Píndaro, Pinheiro, Vitor, Telê, Didi, Carlyle. Castilho veio do Olaria; Pinheiro e Telê subiram do juvenil; Carlyle foi contratado do Atlético Mineiro; Vitor veio do Bonsucesso; Edson veio de Minas”.

Perguntado por nós se a função desempenhada por Telê era uma decisão do jogador ou estabelecida por Zezé Moreira, Orlando respondeu sem deixar dúvidas:
“Naquela época ninguém fazia nada de sua própria cabeça. Os técnicos tinham uma força incomensurável. Zezé Moreira pegou Telê, que era centroavante do juvenil, jogador muito inteligente, de muita habilidade e o colocou na ponta-direita, jogando recuado no meio de campo.

Zezé era de uma personalidade gritante, a ponto de pedir a retirada do presidente do clube do vestiário, porque ele queria dar instruções e não queria ninguém presente. Hoje em dia não. Um jogador ganha mais do que o técnico e põe o técnico para fora.

 Foi Zezé que esquematizou o time. O time era defensivo, tanto que nós quase sempre ganhávamos de 1 a 0. O ponta adversário pegava a bola, nosso beque já recuava, o meio de campo fechava o funil e restava ao adversário centrar a bola. Aí nós tínhamos Castilho fabuloso. Pinheiro muito alto e os ataques morriam ali”.

Com relação às críticas da imprensa que insistia em chamar o Fluminense de “timinho”, Orlando explicou a reação dele e de seus companheiros:
“Comentávamos muito sobre o assunto e se pudéssemos nos rebelar, nos rebelaríamos, principalmente os atacantes. Ficar lá na frente com o Carlyle era uma loucura. Mas, como estávamos em grande forma e o Carlyle era um artilheiro muito bom, nós fazíamos os gols do Fluminense.

Antes do título carioca em 51, o Fluminense conquistou no dia 30 de junho de 1948, em Geral Severiano, o Torneio Municipal, que Orlando afirmava ser a Taça Guanabara da época. Ele recordou esse fato marcante da sua carreira:
“O Fluminense disputou a final contra o Vasco da Gama, que participou do torneio com seu time reserva, o chamado “Expressinho”.

O time principal viajou direto de Santiago, onde se tornara campeão dos campeões, para Salvador. Lá venceu o E C Bahia por 6 a l.

No primeiro jogo da melhor de três, nós ganhamos do “Expressinho” por 4 a 1 e eu fiz os quatro gols, sendo que um foi interessante, porque o Rodrigues chutou, a bola ia ultrapassando a linha final e eu na corrida botei para dentro. Naquela época, o Rodrigues ficou reclamando que eu tinha roubado o gol dele. Negócio de rapaziada. Eu fui obrigado a declarar a imprensa toda que o gol foi do Rodrigues para a boa harmonia da equipe. Disse, que quando toquei na bola, ela já havia penetrado no gol. Mas, dei tanto azar que no dia seguinte o Jornal dos Sports apresentou o lance do gol, mostrando que a bola, ainda, não havia entrado.

Veio o 2o jogo, que foi na Gávea. Nós perdemos por 2 a 1 e eu fiz o gol. Na terceira partida todos esperavam que o “Expressinho” jogasse, já que vencera no domingo. Os próprios jogadores do “Expressinho” não acreditavam que não jogariam, porque já estavam no vestiário mudando de roupa. O time titular do Vasco se concentrou na casa do João Silva, em Jacarepaguá. Nem a imprensa tomou conhecimento O sigilo era absoluto. Quando os jogadores estão trocando de roupa é que entra, já de roupa trocada, o time principal e o Flávio diz que o Vasco precisa daquele título, comunicando aos jogadores do time reserva que eles não vão jogar.

Nesta oportunidade, nós já estávamos em campo. Tem uma fotografia muito sugestiva, onde os jogadores do Fluminense, quando ouviram aquela explosão, ficaram de lado com os olhos arregalados. Isso nos tirou a responsabilidade de ganhar da equipe reserva do Vasco. Agora a responsabilidade era do Vasco em ganhar. Mas, nós ganhamos por sorte, não realmente por qualidade. Eu fiz o gol. Um gol que a gente faz e não sabe como é que fez. Deram a bola para a esquerda, Rodrigues correu e centrou. Eu havia ultrapassado a bola, me virei, dei a levantada de perna e pegou firme. A bola entrou no meio do gol e quando eu caí olhei. Por sorte, por ser uma jogada imprevisível, o fotógrafo Ângelo, do O Jornal conseguiu me pegar no ar. Daí por diante, o Vasco jogou dentro do nosso gol. Mas, a competência do Castilho impediu que o Vasco marcasse”.

Orlando fez muitos gols em vitórias do Fluminense por 1 a 0. Na sua opinião esses gols marcam o jogador. Citou, como exemplos, além do gol marcado contra o Vasco, na decisão do Torneio Municipal, os jogos contra o Flamengo nos 1o e 2o turnos do campeonato carioca de 51 e a primeira partida da decisão contra o Bangu no mesmo ano.

Por que “Pingo de Ouro?” Orlando explicou a razão do apelido:
“Num jogo Fluminense e Bonsucesso, no campo do Botafogo, vencemos por 5 a 2 e eu fiz quatro gols. A tarde era chuvosa e no dia seguinte o José de Araújo escreveu no jornal, que o Fluminense goleou o Bonsucesso e Orlando foi o “Pingo de Ouro”, porque eu parecia um pingo d’água em todo o gramado e tinha sido de um brilhantismo invulgar, que brilhava como se fosse ouro. Hoje, eu me apresento para ser reconhecido como Orlando do Fluminense ou Orlando “Pingo de Ouro”.

Sobre o prestígio do jogador junto à torcida na sua época e o que se observa hoje, Orlando deu sua opinião:
“O Maracanã acabou com os ídolos. Eu que vivo o dia a dia do Fluminense se encontrar na rua certos jogadores não os reconheço. A distância, no Maracanã, entre a torcida e o jogador é muito grande. Na nossa época os torcedores entravam em campo, nos abraçavam e nos carregavam. Eu fui um dos jogadores mais carregados pela torcida do Fluminense. O importante era o contato direto da torcida com o seu ídolo. Além de conhecer o jogador, gostavam do craque, gostavam do homem, da criatura humana. No Fluminense tinha jogos de manhã dos juvenis, à tarde dos aspirantes e profissionais. Então, o associado ficava no clube o dia todo. Eles sabiam de nossa vida e dos nossos problemas familiares”.
Em 1949, Orlando foi convocado para a seleção brasileira, que disputou o sul-americano, no Brasil. Para a meia-esquerda Flávio Costa chamou Orlando e Jair da Rosa Pinto. O “Pingo de Ouro” fez um gol de bicicleta contra a Colômbia. Marcou diante do Peru e enfrentou o Uruguai.

Orlando explicou porque convocado entre os quarenta inscritos, não disputou o mundial de 50:
“Naquela época, surgiu a idéia de que para ganhar campeonato, precisava-se de jogadores grandes, fortes. Trocaram a habilidade pela força. Alfredo II, lateral do Vasco, jogou até na ponta. Fui convocado e cortado. Nem treinei. Eles queriam jogadores fortes para jogar com os europeus”.

Passado o ano de 51, o Fluminense voltava a ser campeão carioca somente em 1959. Orlando nos relatou o que aconteceu depois de 51 na sua carreira e a difícil relação com Zezé Moreira:
“Apesar do Zezé ter me mantido na equipe do Fluminense, eu sofri uma pressão muito grande por parte dele. Zezé, não sei por que, não gostava do jogador ídolo. Hoje em dia somos amigos Na oportunidade, ele fez tudo para que eu não continuasse no Fluminense. Talvez, porque eu era um profissional cumpridor dos meus deveres e muita vezes me rebelava contra a injustiça. Eu, também, me machuquei. Operei o outro joelho e Zezé não me queria mais. Eu queria, ainda, o Fluminense. Achava que tinha condições. Depois de operado, com afinco, dedicação, procurei me recuperar rapidamente.

Eu treinava no time reserva. Já estava em forma e liderava a equipe reserva. Você sabe que a equipe reserva é a que normalmente ganha da equipe titular nos treinos, porque joga descontraidamente. Enquanto os titulares eram pressionados, principalmente, com Zezé em cima, em cima, nós jogávamos à vontade. Eu, então, era o técnico do time de reservas. Mandava trocar passes, tocar a bola e ganhávamos. E, o Zezé não gostava, porque no outro dia a imprensa ficava elogiando. Até que num treino, me lembro bem, recebi uma bola, passei pelo Píndaro, Castilho saiu, eu o driblei e fiquei com o gol totalmente vazio. Veio correndo de lá numa disparada incrível o Vitor. Eu podia fazer o gol, mas dei um toque tão sutil na bola, que o Vitor passou direto para dentro do gol. Eu entrei com a bola e aí foi aquele aplauso da torcida. Zezé Moreira acabou com o treino, dizendo que eu avacalhara com os companheiros e com ele também. Completou falando se fosse com ele me daria um pontapé. No treino seguinte, eu dei um drible no Vitor e ele me deu um pontapé. Dei-lhe um soco e o Zezé me expulsou de campo. Diante dessa situação, ele não queria me botar para jogar. Iam jogar Fluminense e São Cristóvão e a imprensa toda noticiava que eu ia jogar, porque eu sequei, no bom sentido, os jogadores que iam jogar no meu lugar. O Vilalobos se machucou e os outros dois também se machucaram. Entrei em campo embaixo de ovação e ele deu tanto azar, que ganhamos de 2 a 0 e eu fiz os dois gols. O jogo seguinte foi contra o Madureira, em Conselheiro Galvão. Lá cabeça era canela. Empatamos de 0 a 0 e eu não peguei na bola. Zezé me tirou do time”.

Corria o ano de 1953 e o “Pingo de Ouro” deixou as Laranjeiras:
        “Eu não queria, mas o Santos me ofereceu 30000 mil cruzeiros. Era muito dinheiro. Fui para o Santos, mas não joguei bem. Me machuquei muito. Depois eu fui para o Atlético Mineiro, recebendo muito menos. Já fui pensando em negócios imobiliários. Fui artilheiro e campeão no Atlético Mineiro, com Ondino Viera que levou o Santo Cristo.

         Vim para o Rio e não queria mais jogar. Aí veja como é a vida. Zezé Moreira tinha ido para o Botafogo e me convidou para jogar no Botafogo”.

         Orlando teve uma rápida passagem pelo Canto do Rio, pelo qual disputou um Torneio Início e foi considerado o melhor jogador do torneio.

        Orlando Viana, o “Pingo de Ouro”, lembrou o encerramento de sua carreira:
         “No Brasil, o jogador de 30 anos, segundo a imprensa, quando joga bem é igual ao vinho, porém quando joga mal sentiu o peso dos anos. Mas, eu não queria mais jogar futebol, porque já estava me dedicando a outra atividade. Desde que cheguei ao Rio, tinha uma meta comigo: deixar o futebol, sem que ele me deixasse.

        Larguei o Botafogo, no meio do campeonato, porque já estava atrapalhando a minha outra vida profissional”.

       Com a experiência de dezesseis anos de carreira, Orlando deixou importantes conselhos para as futuras gerações:
       “Primeiro tenham vergonha. Porque o homem que tem vergonha é um homem sério. Jogador de futebol para ser craque precisa se respeitar. Respeitar a sua profissão para que os outros o respeitem. Eu sempre me respeitei. Nunca bebi, fumei, cheguei tarde a um treinamento. Nunca fui multado. Nunca fiz um vale dentro do clube.

Para ser um grande jogador não basta saber manejar uma bola, ser hábil, ser valente. Acima de tudo tem que ser homem. Respeitar sua profissão, seus colegas. Tendo habilidade e essas qualidades, vai vencer na vida em qualquer atividade que por ventura venha seguir”.

A entrevista com o saudoso e querido amigo Orlando “Pingo de Ouro”, segundo maior artilheiro do Fluminense, foi realizada no programa “Álbum dos Esportes”, na Rádio Capital, em 1984.

Foto 01 – Na temporada de 1942, Orlando no início de careira com a camisa do Náutico foi a grande revelação do campeonato pernambucano.

Foto 02 – Orlando no primeiro ano em que vestiu a camisa do Fluminense: Batatais, Paschoal, Vicentini, Haroldo, Bigode e Nanati; Pedro Amorim, Carango, Geraldino, Orlando e Rodrigues.

Foto 03 – Uma das formações do Fluminense no supercampeonato carioca de 1946: Bigode, Paschoal, Telesca, Robertinho, Gualter e Haroldo; Pedro Amorim, Ademir, Juvenal, Orlando e Rodrigues.

Foto 04 – Em 1948, o Bangu realizou uma série de partidas no mês de inauguração do Estádio Proletário. Um dos adversários foi o Fluminense que o venceu por 4 a 2. Antes da partida Domingos da Guia e Orlando se cumprimentam na presença do árbitro Mário Vianna.

Foto 05 – Uma das formações do Fluminense que disputou a série melhor 3 na decisão do título do Torneio Municipal de 1948: Castilho, Índio, Mirim, Pé de Valsa, Haroldo e Bigode; 109, Simões, Rubinho, Orlando e Rodrigues.

Foto 06 – O gol de bicicleta de Orlando “Pingo de Ouro” que derrotou o “Expresso da Vitória” do Vasco da Gama, no dia 30 de junho de 1948, há 70 anos, em General Severiano.

Foto 07 – Vestiário do Fluminense após a grande conquista do Torneio Municipal de 1948. Aparecem Orlando, herói da noite, e o técnico Ondino Viera.

Foto 08 – Antes da partida Fluminense 3 x Racing 2, em Álvaro Chaves, em 1948, vemos Orlando e o argentino Mendes.

Foto 09 – Em 1949, Orlando fez parte do elenco brasileiro que disputou o sul-americano. Antes de um treino vemos Cláudio, Zizinho, Otávio, Orlando e Canhotinho.

Foto 10 – Escalado por Flávio Costa, Orlando enfrentou o Peru, marcando o 7º gol brasileiro que fechou o placar em 7 a 1.

Foto 11 – Na partida diante da Colômbia, Orlando deixou a sua marca de artilheiro com bela bicicleta na goleada por 5 a 0.

Foto 12 – Após marcar o gol da vitória tricolor no Fla x Flu, no turno do campeonato carioca de 1951, Orlando comemora com Didi e Carlyle.
Foto 13 – Equipe do Fluminense antes da segunda partida da melhor de três diante do Bangu que decidiu o título do campeonato carioca de 1951: Píndaro, Lafaiete, Vitor, Edson, Castilho e Pinheiro; Lino, Orlando, Telê, Didi e Robson. O tricolor venceu por 2 a 0.

Foto 14 – Em 1952, o Fluminense estreou na Taça Rio empatando com o Sporting por 0 a 0. Equipe tricolor antes da partida diante dos portugueses: Píndaro, Edson, Jair Santana, Bigode, Castilho e Pinheiro; Telê, Didi, Carlyle, Orlando e Robson.

Foto 15 – Orlando e Pereira Natero em lance do jogo Fluminense 3 x Peñarol 0 pela Taça Rio.

Foto 16 – No vestiário depois da partida entre Fluminense e Nacional pela Copa Montevidéu de 1953, Orlando é examinado pelo médico Dr. Dourado Lopes. Os jogadores do Fluminense foram agredidos numa briga generalizada que ficou conhecida como “A batalha de Montevidéu”. 0 a 0 foi o resultado do jogo.

Foto 17 – Em 3 de outubro de 1953, Orlando estreou no Santos contra o Comercial. Ele marcou o primeiro gol na vitória por 2 a 0.

Foto 18 – Linha atacante do Atlético Mineiro no campeonato estadual de 1954: Lucas, Miranda, Joel, Orlando e Amorim.

Foto 19 - Time do Canto do Rio em 1956: Lafaiete, Veludo, Eli, Vitor, Duque e Hélcio; Jairo, Julinho, Zequinha, Orlando e Ari.

Foto 20 – Orlando “Pingo de Ouro” quando vestiu a camisa do Botafogo.



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terça-feira, 10 de julho de 2018




                      

                                           Roberto, o artilheiro do bi estadual de 1968


Nos anos 60, as divisões de base do Botafogo formaram inúmeros excelentes jogadores para o time principal. Muitos obtiveram conquistas memoráveis em suas carreiras. Uma dessas pratas da casa alvinegras era o excepcional atacante Roberto Miranda. Seus principais títulos foram o bicampeonato estadual de 67/68 e o mundial do México em 1970. Em sua residência, em Niterói, conversamos com esse grande artilheiro:

“Primeiro José Rezende, é um prazer estar novamente com você e comentar um pouco sobre a minha vida. Ela começou num bairro onde morava um dos maiores jogadores de todos os tempos, que era o Zizinho. Ali, em São Gonçalo, eu comecei a dar os meus primeiros passos. O bairro onde nós jogávamos se chamava Paiva e ali morava um senhor chamado Licineu que era treinador. Na escolinha dele iniciei no futebol. Era a verdadeira pelada e nós jogávamos descalços. Logo depois, eu fui jogar no Manufatura que era uma fábrica de tecidos. Todos eram garotos na faixa de 12, 13 anos. Foi ali no Barreto que coloquei as primeiras chuteiras. Já estava com 14 para 15 anos e joguei contra o Bangu, Vasco e América. Nesses jogos apareceram dois olheiros para me ver.”

O desinteresse do Fluminense o levou ao Botafogo

“Antes de ir para o Botafogo eu fui para o Fluminense. O treinador era o Nilton Cardoso, filho do Gentil. Fui fazer um teste no juvenil, mas entrei no finalzinho. Assistia o treino do Fluminense um diretor do Botafogo. O treino do Fluminense era de manhã e do Botafogo à tarde. Então, ele se apresentou e disse que eu não tinha treinado, porque entrei faltando quase nada para terminar o treino. Propôs pagar meu almoço e me convidou para treinar à tarde no Botafogo, afirmando que eu ia entrar de cara. No primeiro treino nós ganhamos e eu fiz três gols. Não voltei mais ao Fluminense e passei a ser jogador do Botafogo”.

O ídolo Amarildo e os títulos nos juvenis

“No juvenil eu ia ver jogar os aspirantes e os profissionais. Eu gostava muito do Amarildo. Eu achava que ele era um jogador valente, partia para dentro, driblava bem e fazia gol. Era um exemplo para mim, em quem eu me espelhei.

O Rivadávia, o Djalma, e o Zé Luís montaram a base. Eu vim de São Gonçalo, outros vieram de Leopoldina, Recife. No Botafogo, tinha um dormitório embaixo da arquibancada onde nós ficávamos. Estudávamos à noite e treinávamos pela manhã. Eu não saía do Botafogo. Eu vivia mais no Botafogo do que na minha casa. O Zé Luís, o Riva e o Djalma davam tudo deles para nós termos um bom juvenil. Nós muitas vezes falávamos que seria muito difícil ser profissional no Botafogo. Para mim, especialmente, como entrar numa linha com Garrincha, Didi, Quarentinha, Amarildo e Zagalo. Formamos um grande juvenil e fomos tricampeões em 61/62/63. Por ocasião do Torneio Início, os profissionais estavam viajando, fomos representar o Botafogo e conquistamos o título.

Todo esse sucesso foi sob o comando técnico do Paraguaio. O Neca já pegou uma geração posterior, a do Carlos Roberto e outros. Paraguaio era um excelente treinador. Nós éramos uma família. No dia do jogo, os diretores ficavam com a gente. Nós íamos treinar no campo do Riva, em Corrêas, e concentrávamos lá. Nós jogávamos aos domingos de manhã às 9 horas”.

A ascensão para os profissionais

“Em 1964, fui convocado para disputar as Olimpíadas, em Tóquio. Quando voltei me colocaram no time de cima e comecei a viajar com os profissionais. Entrava durante algumas partidas. Eu e o Jairzinho subimos juntos. Eu me firmei no time principal numa excursão. O Zagalo era o titular e o treinador era o Geninho. O time não andou bem na primeira partida e ele tirou o Zagalo e me colocou. Ganhamos todos os jogos, voltei como artilheiro e não sai mais. Quando o Geninho tirou o Zagalo, me colocou na frente com o Garrincha e o Jair. Eu e o Jair penetrávamos pelo meio e o Garrincha ficava mais aberto. O Zagalo já estava querendo parar e o Garrincha também estava no final. Quando o Zagalo voltou foi para ser treinador do juvenil e anos depois me convocou para a Copa de 70.”

O bicampeonato estadual de 67/68

Roberto nos falou sobre o período anterior, já com Gerson no time, e das conquistas dos títulos estaduais de 67/68:

“Antes quero dizer que em 62 eu tive a oportunidade de jogar uma partida no time de cima que foi bicampeão. Neivaldo era o ponta-direita do aspirante que ia decidir o título com o Vasco. O Garrincha se machucou e eu fui escalado para enfrentar o Olaria.

Nesse período, eu tive um problema no joelho, devido a um choque com o Pompéia, do América. Ele caiu sobre o meu joelho e eu tive ruptura do ligamento cruzado. Voltei somente em 67.

O time foi formado com o Manga, Leônidas, os mais experientes, o Gerson que o Botafogo tinha comprado e com a base da minha geração e as presenças de alguns que vieram dos juvenis como o Rogério e outros.

Na época havia muito equilíbrio entre os times. Nós sentíamos que dava para conquistar os títulos. Nesses dois anos, além dos campeonatos estaduais disputamos e vencemos vários torneios no exterior. No México, fomos campeões invictos de um hexagonal.

Em 67 e 68 nós sentíamos que nosso time era superior aos outros. Tanto que as decisões difíceis foram contra o América, na Taça Guanabara, quando perdemos Jairzinho no início e ganhamos por 3 a 2. Diante do Bangu, na decisão do estadual de 67, chovia muito, o estado do campo atrapalhou, mas vencemos por 2 a 1. Derrotamos o Vasco por 4 a 0 na decisão do campeonato de 68.

O nosso sistema de jogo com o Gerson lançando e eu e o Jair partindo na corrida nasceu naturalmente. O Jair era um jogador veloz e eu também tinha velocidade. Nós três combinávamos o seguinte: o Gerson pegava a bola no meio de campo e um de nós aparecia, mas não recebia a bola. Recebia a bola quem partia e a defesa adversária acompanhava quem aparecia para receber. Quando o Jair saía, eu sabia que ele não ia receber. O Gerson lançava e eu partia. Nós tínhamos facilidade para executar essa jogada. Outra jogada era o X. Quando eu estava na esquerda, por exemplo, o cabeça de área me marcava e sobrava o zagueiro. Nisso o Jair corria para a esquerda e o zagueiro acompanhava. Eu, então, sabia que a bola seria metida pra mim. Eu já sabendo matava meu marcador”.

A convocação e o título mundial de 70

Depois de 68, o Botafogo levou 21 anos para ser campeão estadual. Roberto fala sobre o início desse longo período sem títulos e diz como foi a sua convocação para a Copa do Mundo:

“Veio a Copa de 70 e eu, Jairzinho, Rogério, Paulo César fomos todos convocados. Quando nós voltamos, a partir dali começou a desmanchar o time. Alguns jogadores foram vendidos, aconteceram várias contusões. Eu fiquei seis meses parado com problema no tendão de Achiles.

Eu tinha tudo para ser convocado. Eu era artilheiro e dizia para mim mesmo, um artilheiro não pode ficar fora de uma convocação. Apesar de não ter sido convocado pelo João Saldanha. No Botafogo eu já tinha um probleminha com o Saldanha. Um dia ele falou alguma coisa, eu não gostei, respondi e a rixa ficou. Senti que não ia ser convocado.

Um dia estava treinando no Botafogo e chegaram o Jerônimo Bastos e o Antônio do Passo. O treino tinha começado naquela hora e nós estávamos atacando por onde eles entraram. Eles pararam perto do alambrado e conversaram com o Zagalo uns cinco minutos. Depois o Zagalo veio na minha direção e me disse para sair do treino. Eu, ainda, respondi: o treino começou agora porque eu vou sair. Ele repetiu: “Sai do treino e depois nós nos falamos”. Ali eu senti que alguma coisa diferente estava acontecendo. Os repórteres ficaram nos olhando e o Zagalo disse: “Vai pra o vestiário e toma banho. Não fica aqui fora”. Os repórteres querendo entrar no vestiário e quando conseguiram me perguntaram o que eu achava da minha convocação. Dali eu fui para as Paineiras e o Zagalo me avisou que eu já treinaria no dia seguinte. Comecei a fazer gols nos treinos, Tostão estava com problemas e senti que não sairia mais.”

Convocado e integrado ao grupo de jogadores, Roberto participou da campanha do terceiro título mundial brasileiro:
“A organização foi perfeita. Durante a Copa do Mundo nós tínhamos apenas uma saída. Assim mesmo depois do almoço e voltávamos. Nós tínhamos liberdade dentro dos treinamentos, na concentração. Não nos sentíamos sufocados. Lá dentro nós tínhamos os nossos divertimentos. O grupo tinha consciência do nosso objetivo. Éramos uma família. Ninguém torcia para alguém se machucar. Quando alguém se machucava, o que era reserva dele pegava o gelo para levar pra ele. Treinávamos muito.

Eu entrei contra a Inglaterra e para mim foi um dos maiores jogos da Copa. Em alguns momentos passamos um sufoco. Teve uma jogada que o Everaldo foi rebater a bola, fura, a bola bate na outra perna e sobra para um inglês na cara do Félix. Se ele toca faz o gol, mas deu um chutão por cima. O Félix fez uma grande partida e do outro lado o Banks também fez grandes defesas.

Quando eu entrei no lugar do Tostão, procurava pegar a bola e ir para cima do zagueiro. Tomava falta ou passava e batia para o gol. Quase que eu faço um gol, quando eu driblei pra dentro, chutei e Banks botou para corner. A minha função era cair na direita ou na esquerda sempre levando um comigo.

Contra o Peru eu entrei no lugar do Jairzinho. O Zagalo me chamou e disse: “Roberto, o Jairzinho está driblando o lateral muito em cima e ele está pegando todas do Jair. Procura driblar longo. Você tem mais velocidade do que o lateral”. Está bem, respondi. Fui prá o jogo e toda hora o lateral ficava e começamos a levar sempre perigo para os peruanos.

Teve um fato até gozado. Quando nós chegamos ao estádio a caminho do vestiário, encontramos os peruanos rezando em frente a uma santa. Com o barulho pela nossa chegada, eles pararam de rezar e ficaram nos olhando. Brincamos com o Didi e acho que nós desconcentramos um pouco os peruanos.”

Roberto deixa o Botafogo

Ao retornar da Copa do Mundo, Roberto no ano seguinte veste a camisa do Flamengo e depois vai para São Paulo:

“Eu fui trocado pelo Brito e o Paulo Henrique. Foi legal porque a turma me conhecia e todos ficaram meus amigos, Murilo, Dionísio, Arilson, Ubirajara, Liminha. Joguei apenas em 71, fui o artilheiro do Flamengo e terminamos em 3o lugar no campeonato. Contra o Botafogo no 1o turno foi 0 a 0 e no returno ganhamos de 2 a 0, gols de Buião.

Retornei ao Botafogo e fui para o Corinthians. No Corinthians encontrei meus amigos que foram da seleção comigo, Ado, Zé Maria, Baldochi, Rivelino. A torcida cobrava muito, mas me dei bem no Corinthians, porque fazia gols, sempre fui raçudo e a torcida gostava de mim. Íamos bem nos clássicos. Porém, nos jogos contra os chamados pequenos e, especialmente, fora nós perdíamos pontos que fizeram falta no final.
O Corinthians era o dono do meu passe. Eu tive uma contusão e já não estava querendo jogar mais. Aí, a minha primeira mulher queria pegar quase tudo do que eu ganhava no Corinthians. Pensei, vou parar aqui. Vim para o Rio e os nossos advogados mostraram se eu parasse não teria mais nada. Ela ficou na dela. Apareceu o América e o Corinthians concordou com o empréstimo. Entrei já na metade do campeonato, comecei a fazer meus gols e o Corinthians me quis de volta. Logo depois me contundi seriamente e não deu mais para jogar. As contusões é que me atrapalharam, porque eu me cuidava e poderia ter jogado por mais tempo.”

O atacante raçudo e os seus marcadores
 
Jogador valente que, como se fala na gíria do futebol, não corria do pau, Roberto apanhou muito das defesas adversárias:

“Aqui no Rio, o Brito não batia. Fontana batia e dava até com a mão. Fora do Rio, Figuerôa e Ancheta também davam. Miguel, que jogou no Vasco, e Luís Pereira davam um pouquinho. Esses eram os que batiam mais. Tinha que bater porque senão nós entrávamos mesmo.

Eu não sou contra muitos árbitros, porque às vezes eles estão em lugares que não dá pra ver. Eu já dei uma cotovelada num jogador que o árbitro não viu. Eu levava e dava. Agora, tem aqueles que vêem e não marcam. Se você souber dar, enrola o árbitro.

 Uma vez eu e o Fontana fomos parar na delegacia. Jogavam Botafogo e Cruzeiro pela Libertadores e ele me deu um tapa no rosto. Revidei e fomos expulsos. Em Minas, nós ganhamos o jogo por 1 a 0 e a confusão começou lá. Quando chegamos aqui, o Dirceu Lopes fez logo um gol. O Fontana me deu um tapa. Eu me segurei. Aí eu fiz 1 a 1. Classificava o Botafogo, tirava o Cruzeiro. Quando fiz o gol fui dar nele.

Na bola, o Figuerôa e o Ancheta marcavam muito bem. Eles sabiam se colocar. Eu para passar por eles tinha que driblar de longe. Sabiam se antecipar e saiam jogando muito bem. Eu encontrava dificuldade e caía para os lados. Evitava ficar perto deles.”

A “guerra” Botafogo x Atlético Mineiro

Na Taça Brasil de 1967, a partida entre Atlético Mineiro e Botafogo, no Mineirão, foi uma verdadeira guerra. Roberto fala o que aconteceu naquele jogo:

“Quando nós chegamos a Belo Horizonte, a torcida do Atlético começou a guerra durante à noite soltando fogos  perto do nosso hotel. Todos os ingressos foram vendidos, o Mineirão estava lotado. A caminho do estádio ouvíamos os torcedores do Atlético gritando: “Guerra!Guerra! Hoje vai ser guerra!”

 O Bianchini botando fogo nas suas declarações à imprensa: “Vamos prá dentro deles, vamos prá dentro deles”. Na chegada ao Mineirão, o Bianchini me procurou e disse: “Olha, eu falei para não pegar você de jeito nenhum. Gosto muito de você.” Respondi: se der vou dar em vocês. Vim aqui pra jogar bola. Ele voltou a falar: “Em você não vai dar não Branco”. Ele me chamava de Branco.

Começou o jogo e ele mesmo pega o Carlos Roberto. Chegava a aparecer o osso da perna do Carlos Roberto que veio de cadeira de roda. Eles queriam dar no Gerson. Não conseguiram pegar o Gerson, deram no Carlos Roberto. Nós avisávamos ao Gerson, não bota a perna. Diante disso tudo a arbitragem se omitiu. O jogo foi empate e decidido no cara e coroa, na maior confusão.”

Os melhores goleiros, técnicos e dirigentes

Roberto enfrentou grandes goleiros, conviveu com muitos técnicos e dirigentes ao longo da sua carreira profissional:

“O Andrada era um goleiro chato. Rápido, quando dividia sabia abafar, caindo na horizontal. Ele dificultava.

Manga foi um dos melhores que eu já vi. No treino ele nos desafiava. Mandava chutar de pertinho: “Chuta na minha cara.” Nós fomos pra uma excursão e ele tinha operado o joelho. Entrou o Cao e nas duas primeiras partidas fechou o gol. Quando o Manga viu as atuações do Cao, sem estar totalmente recuperado, chamou o Zagalo e disse: “Zagalinho, me põe. O Cao está fechando o gol. Eu quero jogar.” O Zagalo colocou-o pra jogar e ele, também, fechou o gol.

Paraguaio foi um grande técnico. Ele chegou para mim e disse: “Você tem um defeito. Pula com os olhos fechados. Você não sabe onde o goleiro está e, não sabe aonde vai colocar a bola.” Outra coisa: “Você está batendo só com a direita. Procura bater com a esquerda. Se vira quando a bola cair para a sua esquerda.” Aí começou a me treinar a bater com esquerda. Mais ainda: “Não dá às costas prá o zagueiro. Dá o lado porque você está vendo.” Outros técnicos importantes foram o Geninho e o Zagallo.

Eu comecei no futebol numa família dirigida pelo Zé Luís, o Rivadávia e o Djalma Nogueira. Por muito tempo eles foram meus dirigentes. Nós éramos amigos. Nunca saí de nenhum clube por problema com dirigente. O Vicente Mateus e o Isidoro, irmão dele, me tratavam como se eu tivesse nascido ali no Corinthians.

Tive grandes alegrias e grandes tristezas. Eu sempre gostei de jogar bola. As tristezas foram pelas contusões que eu tive”.

No dia 9 de junho de 1968, Botafogo e Vasco decidiram o título do campeonato estadual, no Maracanã, com um público de 141 689 expectadores e arbitragem de Armando Matques. Alvinegros e vascaínos tinha respectivamente 4 e 5 pontos perdidos. O Botafogo jogava pelo empate.

Os comandados de Zagallo foram bem superiores e venceram o jogo por 4 a 0. Roberto abriu o marcador aos 15 minutos e Rogério fez o segundo gol aos 33. No 2º tempo, o Botafogo marcou mais duas vezes por intermédio de Jairzinho, aos 14 minutos, e Gerson aos 22.

O Botafogo jogou com Cao, Moreira, Zé Carlos, Leônidas e Valdencir; Carlos Roberto e Gerson; Rogério, Roberto, Jairzinho e Paulo César.

O Vasco alinhou Pedro Paulo, Jorge Luís, Brito, Ananias (Sérgio) e Ferreira; Buglê e Danilo Menezes; Nado (Alcir), Nei, Valdrido e Silvinho.

O Botafogo obteve 16 vitórias, 2 empates e uma derrota (Vasco 0 x 2 – 1º turno); 40 gols pró, 10 contra e saldo de 30 gols.  Roberto foi o artilheiro do campeonato com 12 gols.

Em 1968, o Botafogo também conquistou a Taça Guanabara e a Taça Brasil.
 
Foto 01 - Uma das formações do time do Botafogo que se sagrou bicampeão carioca de juvenis 61/62 antes da partida contra o Bangu, no dia 15 de abril de 62, em General Severiano: em pé, Mura, Florisvaldo, Zé Carlos, Admilton, Luiz Carlos e Adevaldo; agachados, Dagoberto, Othon, Roberto, Arlindo e Iroldo. Os alvinegros venceram por 2 a 0 com dois gols de Roberto.

Foto 02No jogo final do campeonato estadual de 1967, Roberto salta com Ubirajara que pratica a defesa.

Foto 03Roberto e Jairzinho formaram uma extraordinária dupla atacante no bicampeonato estadual de 1967-68. Roberto vibra após abrir o marcador contra o Vasco e Jairzinho corre para abraçá-lo.

Foto 04 - Segundo gol do Botafogo contra o Vasco, em 1968, marcado por Rogério. O goleiro Pedro Paulo está batido e Roberto comemora.

Foto 05 – Equipe do Botafogo bicampeã estadual de 1968: Moreira, Cao, Zé Carlos, Leônidas, Waldencir e Carlos Roberto; Rogério, Gerson, Roberto, Jairzinho e Paulo César.



 









segunda-feira, 11 de junho de 2018




                                    Adeus a rainha do tênis brasileiro

As conquistas da paulistana Maria Ester Bueno, ao longo da sua brilhante carreira, a coloraram na condição de “Rainha do Tênis Brasileiro”. Foram 589 títulos, sendo 19 vitórias em torneios Grand Slams, vários títulos de simples e dupla, homenageada com o troféu de melhor do mundo em 1959 e 1960 e incluída na Galeria da Fama por sua extraordinária trajetória como desportista.
 Filha de uma família envolvida em esportes, com o pai tenistas e remador e a mãe jogadora não profissional de vôlei, começou a vida nas quadras bem cedo ao lado do irmão Pedro, com quem treinava, jogava e viajava junto. O apoio da família a levou a torneios infanto-juvenis em São Paulo e no resto do Brasil. Aos 14 anos ganhou, com diferença de dois meses, um campeonato juvenil e outro adulto. Daí foi convidada para jogar no torneio americano Orange Bowl, quando ganhou 14 dos 15 jogos. Surgiram os convites para a Europa, Austrália e África do Sul. Muito jovem, quase uma criança, cresceu a cada disputa, convivendo com a pressão emocional e as saudades da família:
“Me propus a jogar e era o que eu gostava. Os sacrifícios eram enormes, mas valeu a pena. Faria tudo de novo. Fui muito bem recebida no mundo inteiro. Mesmo jogando com italianos na Itália ou ingleses na Inglaterra, as pessoas me apoiavam e ganhei muitos e muitos jogos por causa do apoio da torcida. Como latina não conseguia esconder o que estava sentindo e as pessoas apreciavam isso. Se estava bom, tinha a torcida me alegrando e vibrando. Se estava ruim, a torcida sofria junto comigo também”.
Numa época em que a medicina esportiva não contava com tantos recursos de preparadores físicos, fisioterapeutas e tecnologia avançada, Maria Ester Bueno conquistou dois títulos mundiais, com dores no ombro em 1958, e três torneios de simples em Wimbledon com problemas no braço e nas costas.
Se por um lado, os recursos atuais cuidam da parte física dos atletas, por outro foi-se o romantismo e a elegância do esporte. A começar pelas roupas, que deram a ela o apelido de “Bailarina de Wimbledon”. Seus vestidos, confeccionados pelo estilista inglês Ted Tinling, especializado em roupas para quadras, encantavam os expectadores:
“Eram verdadeiros vestidos de noite, porém curtos, em seda e com bordados em pérola. Nunca ninguém se vestiria do mesmo jeito que o adversário, não tinha nada feito em série. Era um elegante ballet com roupas de noite”.
Os encontros com grandes personalidades mundiais mostraram a importância da tenista brasileira também fora das quadras. Teve a honra de conhecer o Papa, almoçou e jantou com a Rainha Elizabeth II, jogou tênis com a princesa Diana, mãe de dois alunos ilustres, William e Harry.
Por fim, às novas gerações, deixou um inspirador recado: “O importante é fazer o que gosta e fazer com carinho e determinação. Temos que ver os obstáculos como desafios”.











F01 – Maria Ester Bueno, no início de carreira, confere o quadro que publica a conquista de um título.
F02 – A tenista brasileira, após sua primeira conquista em Wimbledon, recebe o troféu das mãos da Duquesa de Kent.
F03 – Maria Ester e o belo e cobiçado troféu de Wimbledon.
F04 – Em julho de 1959, após importantes conquistas, a extraordinária tenista desembarca em solo brasileiro.
F05 – Grande público recebeu Maria Ester Bueno para homenageá-la.
F06 – O presidente Juscelino Kubistchek prestou sua homenagem em nome do povo brasileiro.
F07 – Esterzinha externa seu carinho à imprensa esportiva.
F08 – Maria Ester Bueno e Althéa Gibson campeãs em Wimbledon.
F09 – Em 1960, bicampeã mundial ao lado de sua adversária.
F10 – O Clube de Regatas Tietê homenageou sua grande campeã, mandando erguer uma estátua de bronze na entrada de sua sede em 1960.