segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Victor, muita garra com a camisa tricolor


                                                                   Victor


Em março de 2006, encontramos com Victor Azambuja Monteiro, o Vitor da linha média formada por ele, Edson e Bigode do chamado timinho do Fluminense, campeão carioca de 1951. A conversa, na sala do Flu-Memória, na presença do zeloso Luizinho, trouxe inúmeras e boas recordações:

“A minha história é meio complicada, porque eu tive uma infância muito difícil. Vim de uma família carente e naquela época a despesa ficava toda em cima de meu pai. Eu era um peladeiro. Queria estar sempre num campo de futebol. Eu ia jogar pelada em vez de ir ao colégio. Assim fui levando a minha vida até começar a trabalhar com meu tio, que era proprietário de uma farmácia, em São João de Meriti. 

No Madureira, a primeira experiência 

Tinha meus 15 para 16 anos e dali fui fazer uma experiência no Madureira e me aproveitaram na categoria de base. Disputei naquele ano de 1946 o campeonato carioca de juvenil. No time principal do Madureira tinham muitos cobras. Lá jogaram Jair, Lelé, Isaias, Espinelli. Todos eram nossos ídolos.  

As dificuldades em um clube pequeno são muito grandes. Íamos para os outros estádios na carroceria de caminhão. Enquanto os jogadores do Fluminense, Flamengo, Botafogo estavam bem alimentados. Nós saímos de casa cedo só com o café. Quando ganhávamos tudo bem, mas na maior parte das vezes nos davam o dinheiro da passagem para pegar o trem.

De Teixeira de Castro para as Laranjeiras 

Jogava no São João FC, de São João de Meriti. Um dia, o Bonsucesso foi lá jogar uma partida amistosa e eu joguei além daquilo que eu pensava que podia ser. Quando terminou o jogo eu e mais dois colegas recebemos o convite para irmos treinar no Bonsucesso. Meus colegas não foram e eu fui sozinho. Treinei bem e no terceiro treino me chamaram para assinar contrato. Entrei no lugar do Mirim, que estava indo para o Fluminense, ganhando 600 cruzeiros. O Bonsucesso estava contratando o Alvarez, goleiro uruguaio. Lá encontrei o Miguel, que era zagueiro, Cambuí, Tampinha, Urubatão, Gilberto.

Fizemos uma boa temporada e no ano seguinte renovei contrato recebendo agora 4000 cruzeiros. Tive a infelicidade de estourar meus meniscos da perna direita num jogo contra o Fluminense, em Teixeira de Castro. Fui operado e só voltei oito meses depois. Num clube pequeno cheio de dificuldades não me trataram como eu deveria ser cuidado.

Quando retornei ao time fiz um excelente campeonato em 1950. No jogo com o Fluminense, no Maracanã, jogando fora da minha posição consegui fazer três gols no Castilho. Ganhamos de 5 a 3 para infelicidade do Fluminense e para minha felicidade, porque jogava no Bonsucesso. Mas, meu clube sempre foi o Fluminense. 

Não sentia mais a perna e após o campeonato houve mudança no Fluminense com a contratação de Zezé Moreira. Com o Zezé, a pedido dele, veio o Gradim. A pedido do Gradim o Fluminense me contratou

Cheguei ao Fluminense para fazer experiência de um mês, porque o presidente do Bonsucesso não queria me vender. Comecei a treinar o tempo passando e nada resolvido. Até que o Bonsucesso foi treinar com o Fluminense, nas Laranjeiras.  

Para surpresa minha, o presidente do Bonsucesso não me deixou treinar no Fluminense e sim no Bonsucesso. Começou o treino e o Fluminense ganhava de 2 a 0. Eu estava do lado de fora com a camisa do Bonsucesso. Entrei no segundo tempo e para minha felicidade viramos e ganhamos de 3 a 2.

O prazo estava se expirando e o meu sonho não se realizava. Eu tinha o aval do Zezé, mas por outro lado o presidente do Bonsucesso e o Fluminense não chegavam a um acordo financeiro. Foi mais uma semana de agonia. Até que apareceu o Romeu Dias Pino, presidente do Conselho Deliberativo, e resolveu a questão. Por 100 mil cruzeiros fui liberado para minha alegria.

Titular no sistema de Zezé Moreira

Não fui titular logo no início. O titular era o Pé de Valsa e o Nelson Adams o reserva. Para alegria minha e infelicidade do Nelson Adams, ele rompeu o tendão de Aquiles e não conseguiu voltar mais. Eu me adaptei mais ao sistema do Zezé Moreira, a marcação por zona, do que o Pé de Valsa, que era muito mais técnico. Eu era mais de briga.

Veio o campeonato, eu joguei nos aspirantes e o Pé de Valsa no time titular. Na terceira ou quarta rodada, os aspirantes venceram do Vasco, se não me engano, por 3 a 0, e os titulares perderam por 4 a 2 e o Pé de Valsa foi queimado.

Na semana do jogo contra o Bangu, Zezé me colocou para treinar meio tempo nos aspirantes e meio nos titulares. Na concentração os aspirantes acordavam às 7 horas e os titulares às 8. No domingo do jogo, não me acordaram. Às 10 horas fizemos a revisão médica e o Pé de Valsa foi queimado, dizendo que a pressão dele estava alta. Para minha felicidade a porta se abriu naquele dia. Ganhamos do Bangu, que era o bicho papão, por 5 a 3, e daí por diante joguei o campeonato todo”.

O “timinho” não era timinho

A imprensa em geral e os torcedores dos outros clubes chamavam a equipe do Fluminense de timinho. Victor nos conta como ele e seus companheiros reagiam e a partir de qual momento sentiram que poderiam ser campeões:

“Só quero saber o seguinte: time igual ao do Fluminense, da categoria do Fluminense, com quatro jogadores de seleção, é timinho? Então, os outros times o que eram? Perna de pau. Tínhamos Castilho, Píndaro, Pinheiro, Didi, Orlando. Eles pensavam que era timinho, mas não era.

Nós sentíamos que tínhamos condições de chegar ao título, porque nós éramos muito aplicados. Nós sabíamos o que o Zezé queria. Nós cumpríamos aquilo à risca, nunca fugimos. Todo mundo dizia é marcação por zona, ele vai matar os jogadores. E ninguém morreu. Eu, por exemplo, não morri. Eu e o Edson tínhamos um preparo físico muito bom e marcávamos muito.

O Fluminense tinha time para ganhar do Bangu

A derrota na última rodada, que provocou a melhor de três, para nós foi uma surpresa, apesar do Bangu ter um grande time. O nosso era mais aplicado e mais bem treinado. Nós quando saímos para a decisão contra o Bangu, saímos compenetrados que tínhamos time para ganhar do Bangu.

A posição do Telê no juvenil era centro-avante. Quando o Telê foi para o profissional, o Zezé o colocou na ponta-direita, porque queria alguém que fechasse pelo lado direito e não ficasse fixo lá na frente.

Telê se adaptou de tal maneira que se tornou uma figura no time que mais cumpria a determinação do Zezé. Carlyle foi expulso no primeiro jogo e o Telê foi escalado como centroavante, entrando o Lino na ponta-direita e o Robson na esquerda.

Na primeira partida, num escanteio o Carlyle se aproximou do Osvaldo “Topete” e foi empurrado por ele. Quando o Osvaldo deu às costas, o Carlyle desmanchou o cabelo dele. O Mário Vianna expulsou só o Carlyle. Eu tinha a certeza de que aquele ano era do Fluminense.

No primeiro jogo, o Mendonça ameaçou todo mundo. Quando ele ameaçou o Joel, o Didi foi se meter e também foi ameaçado, dizendo que ia dar mesmo. O Didi respondeu se ele fosse dar, ia levar também. Na primeira bola dividida, o Didi já estava prevenido e, malandramente, esticou a perna a mais. Aconteceu o que não podia acontecer, fraturar a perna do Mendonça”.

A participação no time de aspirantes e o vice do Rio-São Paulo

No ano seguinte, o Fluminense, na qualidade de campeão carioca, disputou a II Copa Rio, por ocasião de seu cinquentenário. Victor explica porque não participou dessa inesquecível conquista:

“Nessa época, um amigo do Zezé ofereceu o Jair Santana, do Olaria, ao Fluminense. O Jair foi contratado e o Zezé também começou a mexer no time. Eu fui um dos sacados. Estava no grupo e treinava a semana toda e só não ia para concentração. Não sei por que não era escalado”.

Sem jogar na equipe principal, Victor integrou os aspirantes e conquistou títulos. Em 1954, o Fluminense foi vice-campeão do Torneio Rio-São Paulo, perdendo o título na última rodada:

“Olha, no time de aspirante tinha grandes jogadores. Primeiro, o goleiro era o Veludo. Getúlio na lateral-direita. Getúlio jogou no Santos. Jogavam também o Nestor, Lafaiete, Emilson Pessanha, Batatais. Tanto que as minhas participações nos aspirantes foram mais como meia. Quando você não jogava em cima, jogava nos aspirantes. Pinguela, que era titular do Bangu, foi contratado e jogava nos aspirantes. Waldo, João Carlos, Robson jogaram nos aspirantes. Veja quantos craques saíram daquele time de aspirantes.

O Rio-São Paulo era um torneio muito difícil. Nós jogamos para ganhar. Perdemos na última rodada por 1 a 0 para o Vasco e demos o título ao Corinthians. Castilho, Veludo, Pinheiro e Didi estavam na Copa de 54, na Suíça. Adalberto, Duque e outros bons jogadores foram seus substitutos”.

Pirilo a causa da saída do Fluminense

Victor aponta o momento mais importante da sua carreira e conta a razão de sua saída do Fluminense para o Canto do Rio:

“Foi o título carioca de 1951. Tinha vindo do Bonsucesso que sempre deu bons jogadores para o Fluminense: Renganeschi, Rui, Pé de Valsa, Mirim, Careca. Quando entrei no time só perdi dois jogos.

Em 55, o treinador era o Russo e eu vinha jogando. No final do ano, o Fluminense contratou o Pirilo. Ele começou a fazer uma série de modificações. Trouxe alguns jogadores do Bonsucesso, como Paulo, Jair Francisco. Durante os treinamentos, foi tirando um, tirando outro até que me sacou. O direito de me sacar ele tinha, porém eu vinha jogando bem. No meu lugar entrou o Batatais, dos aspirantes.

Continuei a trabalhar, mas senti que o negócio não estava clareando. Em determinada semana, tive um problema de família para resolver e pedi para não me concentrar. Ele me liberou. Quando cheguei terça-feira, ele estava diferente. Fui ficando de lado, de lado e um dia fui excursionar com o time de aspirantes pelo interior.

Estávamos com o Gradim, em Colatina, e o time principal em Vitória. Pirilo vai à Colatina nos visitar e me chama para dar conselhos. Achava que era hora de eu sair do Fluminense coisa e tal. Eu disse para ele que se conselho fosse bom ele não me dava, ia me vender. Eu não ia comprar, porque não quero conselho. Ficou naquilo e quando voltei da excursão, senti que não tinha mais ambiente com ele. Aí, o José de Almeida me chamou para uma reunião com o Pirilo. Ficamos os três e ele voltou a me dar conselhos. Eu me virei e disse: vou embora porque não tenho mais clima aqui. Tenho mais seis meses de contrato com o Fluminense e posso ficar, mas eu não quero. Disse para o Pirilo: você vai se livrar de mim”.

A ida para o Canto do Rio

O Canto do Rio já tinha se interessado por mim. Falei com o Adolfo de Oliveira, que era deputado na época, aceitei a proposta e fui para o Canto do Rio. Estava com 29 para 30 anos. Veludo, Duque, Lafaiete, Eli, Adésio, Garcia, Floriano, depois o Orlando “Pingo de Ouro” também foram contratados. Dava para fazer um bom time. Embarquei naquela barca e fui parar em Niterói. Fiquei livre do Pirilo e ele de mim.

A dificuldade era o transporte. Ia e voltava todos os dias. Os três primeiros meses foram muito bons. Aquilo foi um projeto que não deu certo.

Quando chegamos encontramos como técnico o Nilton Anet. Depois o Lafaiete assumiu a direção do time e foi um desastre. Deixou de lado aquele grupo que foi com ele e passou a escalar os garotos. O Canto do Rio começou a se afundar.  

Não adiantava falar com o Lafaiete. Conversamos com o Adolfo que o Lafaiete não ia dar certo. Mas nenhuma providência foi tomada. Quando o Adolfo sentiu que a coisa estava feia, chamou a mim, o Veludo e perguntou sobre o Zezé Moreira. Pegamos o endereço do Zezé com o José de Almeida, no Fluminense, e o levamos para Niterói. Na excursão que fizemos à Europa, foi conosco o Pinheiro.

Clube pequeno é muito problemático e começou a faltar dinheiro. Quantas vezes saí de Niterói uma hora da manhã, esperando o tesoureiro chegar para saber se tinha dinheiro para nos pagar, e não tinha. Chegava a casa às 3 horas da manhã para estar no dia seguinte às 9 horas, em Niterói. Aquilo atingiu um ponto que não dava mais”.

Campeão na Venezuela 

Depois do Canto do Rio, a convite do empresário José da Gama, Victor vai para o exterior:

“Em 1959, o José da Gama, que era empresário e foi presidente do Madureira, convidou um grupo de jogadores para jogar na Venezuela. Eli, Edésio, que era cria do Canto do Rio, e mais três foram comigo. Defendemos o Desportivo Espanhol e fomos campeões.

A viagem era muito longa. Eram dez horas naqueles aviões quadrimotores. Retornei e resolvi parar. Jogar em time pequeno não dava mais. Fui procurar emprego. Como o Prefeito de São João de Meriti era meu amigo, me contratou. Hoje, estou aposentado, ganho bem e dá para viver”.

Os melhores técnicos e os maiores craques

Victor viu muitos craques atuarem. Destaca aqueles que mais o impressionaram e falou dos adversários mais difíceis:

“Moleque, ainda, era fã do Batatais, do Romeu. Quando me tornei profissional não me espelhei em ninguém. Cumpria sim às determinações do treinador.

Na minha posição sempre gostei do Zito, do Santos. Tostão foi muito bom. Rubens, o Dr.Rúbis, do Flamengo, era chatíssimo de se enfrentar e foi um craque. Excelentes jogadores foram também Ipojucan, Tovar. Agora os dois maiores jogadores de meio-campo foram Didi e Zizinho.

O Fluminense teve a felicidade de anos e mais anos ter dois tremendos goleiros, Carlos José Castilho e Veludo. Muitos falam que o Veludo era melhor do que o Castilho. Não era. O Castilho era mais sério no trabalho dele e o Veludo era displicente. Por isso, primeiro Castilho, segundo Veludo.

Trabalhei com bons técnicos. Gradim era bom treinador e muito humilde. Zezé Moreira era fora de série. Tanto que era fora de série, que teve um aluno que demonstrou o que ele era. Telê é aluno de Zezé Moreira. Pinheirão foi treinador também. Ambos trabalhavam na filosofia do Zezé Moreira”.

As mágoas não esquecidas

Victor ao se despedir, deixou claro que algumas mágoas não foram apagadas das suas lembranças:

“Reclamo do futebol, a existência de umas peças que são treinadores e pensam que são os donos do mundo. A chegada do Pirilo ao Fluminense transformou a minha vida. Me arrependo de não ter dito ao Pirilo que não iria embora, a não ser se o Fluminense rescindisse meu contrato e me desse o que eu tinha direito.

Há bem pouco tempo eu estava trabalhando, em Xerém, e não sei quais as razões do tufão que passou e tirou Pinheiro, Altair, Denilson e eu.

Sou grato ao Fluminense. O clube sempre cumpriu comigo todas as obrigações e eu sempre cumpri com os meus deveres. Lamentavelmente, fui penalizado sem ter praticado nenhuma irregularidade”.  

 
 Equipe do Bonsucesso que disputou o Torneio Início de 1949, no campo do Fluminense: Victor, Cambuí, Borracha, Tião, Rubens e Gato; Abdias (massagista), Demil, Rabada, Roberto, Cola e Soca.
 Time de aspirantes do Fluminense campeão carioca de 1951: Veludo, Nestor, Emilson, Larry, Joel, Duarte, Bimba, Victor, Lino, João Carlos e Robson.  
 Victor em ação na vitória do Fluminense por 4 a 2 sobre o Canto do Rio, no campeonato carioca de 1951.
 Nas partidas finais do campeonato carioca de 1951contra o Bangu, Victor teve pela frente o grande Zizinho.
Uma das formações do Fluminense no campeonato carioca de 1952:  Píndaro, Edson, Victor, Castilho, Pinheiro e Bigode; Telê, Didi, Marinho, Robson e Quincas.
 Equipe do Fluminense na temporada de 1955: Getúlio, Edson, Pinheiro, Veludo, Lafaiete e Victor; Telê, Robson, Waldo, Didi e Escurinho.  
                                     Nas Laranjeiras, Victor em um momento de fé.
 Time do Fluminense na temporada de 1955: Clóvis, Lafaiete, Victor, Duque, Veludo e Bassu; Wilson Bauru, Didi, Átis, Waldo e Quincas. 

Quando saiu do Fluminense, em 1956, Victor passou a defender o Canto do Rio: Lafaiete, Veludo, Eli, Victor, Duque e Hélcio; Jairo, Julinho, Zequinha, Orlando Pingo de Ouro e Ari.
 

 

                   

       

Um comentário:

  1. Q legal esse documentário sobre a trajetória do meu avô! Ele adoraria ter lido esse post! Mto obrigada!!

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